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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Artigos

Zumbi dos Palmares e a Comunidade Negra

Estamos em fins do século XVII, mais precisamente no dia 20 de novembro de 1695, os negros nas senzalas espalhadas por todo o Brasil não acreditam na notícia que ecoa: Zumbi está morto… mortoooo … mortoooo . . .  Não, não é verdade, não pode ser verdade! Zumbi é quase uma figura mitológica, um deus da guerra, o mais poderoso dos gênios, irmão e dono do mar. Zumbi é imortal. Vamos rezar gente! Os cânticos da ressurreição são entoados, esse ritual pode devolver-lhe a vida. No entanto, nos arredores do Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, na capitania de Pernambuco, o clima é outro, os cânticos entoados são de funeral. A cabeça do rei Zumbi está exposta em praça pública. Um horror!  
Por outro lado, os senhores de engenho, nas casas-grandes, estão eufóricos com a notícia da morte de Zumbí, pois chegava ao fim o grande reino negro de Palmares, o símbolo da resistência, os negros não teriam mais força e estímulo para fugir, a paz voltaria aos engenhos. 
Mas quem é Zumbi dos Palmares? Ele é neto da princesa Aqualtune, capturada na África, trazida para o Brasil, e vendida através de leilão a um senhor de engenho, indo para a senzala, como todos os outros negros daquele lote arrematado. Na fazenda, o negro é proibido de praticar qualquer ritual que lembre suas crenças e seu povo, se acusado de preguiça é punido com a palmatória ou chitada nas costas e nas nádegas deixando-as em carne viva. Nas feridas é colocado sal para que a dor dure vários dias, e que o negro não esqueça com facilidade o castigo. Aqualtune um dia foge para o tão afamado Quilombo dos Palmares, onde se planta e também criam gado e galinhas, abrigando, há anos, negros fugitivos dos engenhos, índios ex-escravizados, mulatos e brancos fora da lei. É formado por diversas aldeias, chamadas de mocambos, que em época de crise econômica, principalmente na década de 1660, chegou a comercializar produtos agrícolas com as vilas próximas e, em troca recebiam ferramentas, armas de fogo e pólvora. A princesa logo recebe o governo de um dos mocambos. Filho de sua filha, Zumbi nasce livre, seu nome é uma homenagem ao deus da guerra. Em sua infância, nada nos rios, sobe nas árvores, corre pelas plantações, percorre as aldeias, sempre acompanhado de perto pelos seus tios Ganga Zumba e Gana Zona, o garoto cresce bravo e forte, estórias terríveis da escravidão só conhece através dos mais velhos, como a escuridão das senzalas, o umidade e a morte que rondava os navios negreiros, as hostilidades sofridas pelos seus antepassados no tronco, e outras barbaridades praticas contra seu povo. Zumbí se transforma em um grande guerreiro, seu nome é quase uma lenda, o maior dos heróis, um rei. O seu sonho é que não haja um só negro escravizado. Para isso é instituída a “União dos Mocambos”, o local passou a representar a resistência contra todo o sistema escravagista, os quilombolas passam a fabricar arcos, flechas e lanças. Os senhores de engenho e o governo começaram a enviar tropas até o local, em sua maioria em incursões relâmpagos, porém sem sucesso, devido a vasta mata existente no local e o sistema de defesa espalhados em pontos estratégicos. Os guerreiros quilombolas lutam pela liberdade de seu povo. Em sucessivas batalhas são contabilizadas perdas dos dois lados. Depois de vários ataques, em 1694, o quilombo dos Palmares é aniquilado, porém não encontram Zumbi. Um ano e meio depois, um seu antigo companheiro é reconhecido e preso, e como Judas, o delata. Pego de surpresa, desta vez o cerco ao nosso herói é fatal.    
Passados 318 anos, Zumbi está vivo, povoando os corações de toda a comunidade negra, como um alento às injustiças e preconceitos.
(Fonte: Grandes Personagens da nossa História, Abril Cultural. 1969. pp. 141-156)     
 
Profº. José Antonio Merenda
Ator, professor e historiador
Presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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