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segunda-feira, 08 de março de 2021

Artigos

Virada do calendário

O respeitado historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012) chamou o século XX de “breve”, estabelecendo como seu início o ano de 1914 – da deflagração da Primeira Guerra Mundial – e seu término em 1991, com o fim do comunismo e a desintegração da União Soviética.
Deixava de lado, assim, o calendário oficial, a contagem de tempo criada pela Humanidade.
No dizer do poeta Carlos Drummond de Andrade, “Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.”
Mas o que é um calendário, senão uma ficção? O que adotamos é o gregoriano, assim denominado em homenagem ao papa que o promulgou. E se estamos apenas em 2021, o calendário judaico marca o ano de 5780 enquanto o chinês estabelece o ano de 4718.
Penso que contarmos apenas 2021 anos é ignorar boa parte da História da Humanidade, suas invenções e descobertas, sua valiosa evolução.
Causa-me tristeza que não contemos nossa História, por exemplo, a partir da Filosofia Grega, que acaba sendo demarcada por “a.C.”, como que perdendo sua fundamental importância para nortear a vida em sociedade e nossa vida interior, inspiração que vem sendo construída desde o seu nascedouro, no dito século VI a.C.
Imaginar um filósofo e seus discípulos, ao ar livre, caminhando enquanto as lições eram ministradas – as famosas peripatéticas da Escola fundada em c. de 336 a.C. –, certamente é um bom exercício para aprender a validar a sabedoria acumulada em um passado que deveria ser computado no calendário ocidental.
Inspirada em Hobsbawm, meu decreto interno é que o século XXI (por que não 21?) teve seu início, finalmente, neste nosso janeiro de 2021, e desta vez não com um conflito, mas com a notícia de que o Brasil disporá de vacinas para minorar os efeitos da pandemia causada por um vírus preexistente, que em nova linhagem vem causando pânico.
Poderia ter sido escolhido como fato deflagrador do século a própria pandemia, dirão alguns. Mas eu prefiro começar “meu” século 21 com um marcador de esperança.
Aristóteles, nascido no ano 384 a.C., dizia que “A esperança é o sonho do homem acordado.” Quero estar na companhia dos sábios daquela época.

Elza Galdino
Advogada e palestrante

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