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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

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VIBRAR COM A DOR ALHEIA

Sérgio Augusto escreveu um interessante artigo no “Aliás” de 2.12.18: “Rir com a desgraça alheia, uma mania séria”. Inicia com a menção ao verbete “Schadenfreude”, palavra alemã que une infortúnio e regozijo, ou alegria, para significar o misto entre prazer e sofrimento. Só que o prazer é usufruído por aquele que não sofre. E o prazer deriva, exatamente, do sofrimento alheio.
Rir com a desgraça alheia. Nós sabemos o que é isso. O ser humano é mais lobo do que cordeiro. No duelo Rousseau versus Hobbes, este leva a melhor. Desde o começo da humanidade encontramos essa crueldade explícita. Caim, por inveja, matou Abel. Depois, já o sabendo morto, responde com ironia: “Por acaso sou guarda de meu irmão?”. O episódio salomônico das duas mães que disputavam o mesmo filho também é eloquente. A pseudo-mãe vibraria com a morte do filho da outra. Para Sérgio Augusto, o Livro de Obadias, o menor do Velho Testamento, é uma antologia de schadenfreude entre irmãos.
Em todos os espaços essa insuperável mácula de caráter está presente. Nas famílias, quando um filho colhe o insucesso e a cunhada se alegra. Na carreira, ao verificar que alguém não conseguiu o que almejava. Às vezes parece algo inocente, como as “pegadinhas” as “vídeo cacetadas” ou os tropeções, as quedas, os vexames, nem sempre filmadas ou fotografadas. Rir do tombo alheio é a regra. Prepondera ante a iniciativa de ajudar a levantar. Tanto no tombo real, como no metafórico. A vida é um suceder de escorregões, de arremessos ao solo e do “levanta a poeira e dá a volta por cima”.
Essa é uma característica ínsita ao ser humano. Nietzsche chamou de “vingança do impotente”. Há um livro “Quando coisas ruins acontecem para outras pessoas”, de John Portmann e “Schadenfreude – The Joy of Another’s Misfortune”, ou “A alegria pela desgraça alheia”, em tradução livre, da historiadora Tiffany Watt Smith.
Mas não é necessário se aprofundar para refletir sobre essa chaga moral. Schopenhauer a chamou de “emoção diabólica”, fruto de um “coração perverso”, que corrompe a alma. Nietzsche achava preferível curtir o sofrimento de um desafeto a fazê-lo sofrer.
Como os japoneses dizem, “as desgraças dos outros sabem a mel”. É uma experiência doce, principalmente para os espíritos menores, mesquinhos, medíocres. Raça vil que se expande com desenvoltura, enquanto as balizas morais aos poucos desaparecem da face deste planeta infeliz.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Ética Geral e Profissional” e Presidente da Academia Paulista de Letras.

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