Ir para o conteúdo

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Artigos

Vento e Sensações

Fechei os meus olhos, senti a brisa leve tocar em meu rosto, por um instante me esqueci do turbilhão de coisas que acontecem em minha volta. Senti a liberdade a me circular, mostrando a mim a capacidade que temos de ir e vir. A vida é tão simples e nós a complicamos com nossas fórmulas algébricas de vivê-la; colocamos nela equações que sequer sabemos o que significam os denominadores, os logaritmos.
Não contemplei nada além do silêncio, como se uma paz me envolvesse e eu não quisesse ser desvencilhado dela. Essa paz e quietude me fizeram voar direto ao mar do meu pensamento. Percebi nesse meu voo que posso ir além, mas o medo me prende no chão, como uma ancora a me segurar para que eu não me perca no caminho ou me perca de mim mesmo. Por vezes estive perdido e fora necessário me reencontrar.
O vento que toca em mim me fez olhar para o balançar das folhas que eram tocadas por si, e, de um lado para o outro elas iam e vinham. Presas em seus galhos, elas sentiam apenas a suave manifestação da natureza e não havia nada entre elas e o chão, a não ser o fato de estarem presas à árvore, mas isso não era um sinal ruim, pois a arvore lhe dava vida. No entanto, o ciclo da vida precisa ser cumprido e a folha, ao ser tocada pele vento foi arrancada do galho que a sustentava.
Contemplando esse evento, pude ver a folha fazendo acrobacias no ar, bailava de forma tão singela que pude acompanhá-la com uma música, ela era embalada pelo vento. O vento não me movia, mas sim a folha a qual dançava hora mais acelerada, hora mais lenta até que chegou ao seu destino: o chão.
Era o fim daquela vida? Não havia mais nada a fazer por ela? No chão, ainda embalada pelo vento, ela encontrou-se com outras folhas, e foram amontoando-se até parar nas raízes de outra planta. Ali fizeram sua morada e serviram a outro propósito: continuar a gerar vida, mesmo que de outra forma.
Com o vento no rosto, pude sentir-me como uma folha de árvore; sem entender os porquês da vida, sei que é necessário desprender-me para que a vida continue, mesmo que implique morrer, a fim de servir para outro propósito.
A vida é bem mais que um simples momento. Sinta o baile e siga em frente, como uma folha de árvore, embalada pelo vento da vida a conduzir-te.

 

Padre Flávio Aparecido Pereira
Vigário Paroquial na Catedral
do Divino Espírito Santo

Compartilhe: