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sábado, 18 de janeiro de 2014

Artigos

Um filme antigo

Houve um tempo em que chegávamos às pequenas e médias cidades brasileiras e tínhamos, na praça central, algumas construções típicas: a igreja, o cinema, a escola e a delegacia de polícia. A importância desses prédios nunca foi proporcional à aparência física, muito menos pela história ou tradição que poderiam representar.
A igreja, como um todo, foi dominada por um certo marasmo, algo que agora, com um Papa mais atuante, parece que vai sofrer novo impulso. Escola deixou de ter aquele carisma, algo comum em um país que dá pouco valor à educação. A delegacia de polícia já não impõe tanto respeito, principalmente porque os índices de violência atingiram a níveis nunca imaginados. Fiquemos com os cinemas.
Os cinemas sempre fascinaram a população. O poder da sétima arte sempre contagiou gerações e hoje, apesar da fortíssima concorrência da televisão, ainda persiste nos centros de compras, onde mantém um público fiel. Fora dos shoppings, quase nada restou daqueles prédios que atraíam multidões, principalmente nos finais de semana. Ali, as tradicionais matinês cativaram crianças e adolescentes, e prepararam o expectador do futuro.
Usei essas informações para ir mais fundo nas modificações ocorridas nos velhos edifícios do cinema. Muitas dessas salas se transformaram em igrejas evangélicas, outra prova do enfraquecimento da igreja católica. Em São Paulo, além dessas transformações, ocorreu uma um tanto diferente: a invasão desses espaços, por parte da população sem-teto. Esse movimento popular, nascido nas sub-moradias da capital e incentivado por lideranças políticas que tentam sair do anonimato ganha notoriedade não só pela busca de seus anseios, como também na maneira de agir.
Foi-se o tempo da manifestação pura e simples. Hoje e principalmente este ano que antecede o período eleitoral, esses movimentos sofreram mudanças drásticas e o que era pacífico ganha cunho de provocativo, agressivo e não raro, disposto a partir para o vandalismo. Os interesses de meia-dúzia predominam sobre os interesses de toda uma população. Invade-se o bem público com a mesma irreverência com que o fazem na propriedade particular.
As decisões da Justiça são cumpridas apenas mediante ação policial, e não é rara a prática do esbulho possessório. E a invasão, que era comum na periferia, ganha espaço nos prédios desocupados da região central. O manifestante, muitas vezes manipulado, se torna massa de manobra de líderes que tem os olhos no próximo pleito. E as suas ações repercutem e prejudicam a maioria que cumpre as leis e que paga os impostos.
 
Vitor Sapienza é economista e agente fiscal de rendas aposentado. 

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