terça-feira, 14 de julho de 2020

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“Tudo acaba em pizza”

Quando falamos ‘tudo acaba em pizza’ ou ‘vai acabar em pizza’, logo pensamos na política brasileira, uma dura crítica à impunidade aos envolvidos em crimes políticos, sinônimo de ‘acabar bem’, usar o ‘jeitinho brasileiro’, é uma denúncia que não acaba em nada e qual a relação com a saborosa iguaria milenar, trazida ao Brasil pelos imigrantes italianos e que logo caiu no gosto popular?
Na verdade, a expressão não nasceu na política e sim no futebol.
Na década de 1960, a Sociedade Esportiva Palmeiras, o antigo Palestra Itália, tradicional time paulista, cujos dirigentes eram italianos ou descendentes, atravessava uma crise desportiva. Então eles começaram uma discussão, à italiana, bastante acirrada, em meio a isso, os cartolas esbravejavam, gesticulavam muito, esmurravam a mesa, muito xingamento, enfim uma verdadeira balbúrdia, culpavam uns aos outros pela fase ruim do time. A reunião durou cerca de 14 horas, não chegando a um denominador comum.
A certa altura dos acontecimentos, estavam esfomeados, então foram para uma cantina, que ficava ao lado da sede do Palmeiras, na zona oeste de São Paulo, pediram dezoito pizzas gigantes e depois de comê-las, tomarem muito vinho e chope, já tinham esquecido as brigas por causa do futebol.
A imprensa esportiva, sempre atenta aos acontecimentos, estava lá, O jornalista e radialista Milton Peruzzi, que trabalhava no jornal “Gazeta Esportiva”, acompanhou toda a tensa reunião e posterior confraternização, no dia seguinte, em manchete no referido jornal, assim se expressou: ‘Crise no Palmeiras Termina em Pizza’ e passou a usá-la em outras reportagens esportivas, tanto no jornal, quanto no rádio, quando algo semelhante acontecia.
A ressignificação da expressão, com viés na política, aconteceu a partir da década de 1990, mais precisamente no depoimento, a 31 de julho de 1992, da secretária Sandra Fernandes de Oliveira, de Araraquara, na CPI do PC Farias, na chamada ‘Operação Uruguai’, arquitetada pela turma do ex-presidente Fernando Collor, para vender à população a mentira de que a fortuna pessoal do presidente não provinha da corrupção, mas de um empréstimo feito no país vizinho. Ela disse ao microfone da CPI, “Se isso realmente ‘acabar em pizza’, como querem alguns, acho que é o fim do país”. O esquema foi desmontado, o presidente foi destituído e, dessa vez ‘não acabou em pizza’.
A partir daí, em casos semelhantes, que são recorrentes, o povo usa a expressão ‘vai acabar em pizza’.
(Inspirado na Revista ‘Aventuras na História’, edição 152, março de 2016)

José Antônio Merenda
Ator, diretor teatral, historiador e Presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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