Ir para o conteúdo

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Artigos

Tropeçando 

Uma convenção da linguagem audiovisual: na hora em que a personagem se lembra de algo, as vozes têm eco e as imagens aparecem meio borradas, tomadas pela névoa. É um jeito não muito sutil de dizer ao espectador que o fio principal da narrativa foi interrompido. De qualquer maneira, a relação entre passado e névoa pode render pensamentos interessantes.
Não estou sendo original ao dizer que a memória é um bicho arisco. Ou um carro desgovernado. Ou areia fina que escorre por entre os dedos da mão. A literatura e a psicanálise vêm dando conta do recado há muitos, muitos anos. Mas não custa nada a gente falar da coisa de um jeito mais pessoal. Eis a vantagem da crônica.
Às vezes eu me pego tentando reconstituir cenas de fatos muito marcantes da minha vida. Das grandes alegrias e das grandes tristezas. É um jeito canhestro de entender quem eu sou. É a velha — e verdadeira — história: o menino é o pai do homem.
As pessoas mais chegadas dizem que eu tenho boa memória. Eu poderia dar alguns exemplos aqui, mas a coisa soaria como pedantismo. Sem contar que seria um desvio perigoso. Que fique registrado: dizem que tenho boa memória. Mas a vida não é tão simples, tão categórica assim.
Muita gente, perto da virada do ano, promete ser mais organizada. Estabelecer uma hierarquia cristalina entre as coisas relevantes e as irrelevantes. E aí aparecem listinhas e diagramas que deveriam auxiliar a empreitada. É possível agir assim em muitos departamentos da vida. Mas com a memória a banda toca de outra forma.
Nos meus passeios pela mata fechada do passado, sou tomado por sustos. Cenas teoricamente banais, bobas até, surgem nítidas, avassaladoras. Coisas importantes são vistas e ouvidas de longe. Inversão de valores, em muitos casos.
Como encarar isso? Depende do humor. Quando estou mais sisudo, não retomar com nitidez o passado é frustrante. Se dou trela à amargura, saio por aí falando que nem a hiena do desenho animado: “Ó céus, ó vida!”. Quem estava mesmo naquele encontro tão decisivo? Nossa, não lembro!
Ao mesmo tempo, eu lembro da página que estava lendo enquanto comia um Sonho de Valsa no dia 02/05/97. Lembro da fala mais longa do Galvão Bueno antes de um jogo mixuruca do São Paulo em 1993. Mas lembro muito mal da final da Libertadores de 92 no Morumbi. E eu estava lá. Restou um borrão. Só lembro que estava um frio do cão.
Ainda bem que não sou sisudo na maior parte do tempo. Não que eu seja um primor de eloquência. Não que as minhas gargalhadas sejam fartas. Meu semblante é sério boa parte das vezes, mas ele não reflete o que se passa no miolo. Eu me considero um sujeito meio alegrinho, só não dou bandeira. Tudo isso para dizer o seguinte: quando encaro o passado, e ele prega lá suas peças, encaro numa boa. Coisas da vida.
E é por isso que eu me espanto com as obras memorialísticas de fôlego. Eu me espanto com gente que consegue ordenar a bagunça do passado. Um Pedro Nava, por exemplo, um dos nossos maiores escritores. Lemos aquele mar de reminiscências num misto de euforia e inveja. Mentira: só euforia. Lembrar demais deve ser um fardo.

 

 

Nelson Fonseca Neto
(nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com)
é professor.

Compartilhe: