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segunda-feira, 08 de março de 2021

Artigos

Tempo de Quaresma

Para os cristãos, o tempo da Quaresma nos exorta à conversão, á oração, ao jejum e à esmola, como atitudes de quem se penitencia das faltas cometidas no dia-a-dia e espera a graça de Deus. Há dois tempos litúrgicos de preparação para a celebração dos maiores acontecimentos da História. O primeiro é o Tempo do Advento, que antecede o Natal, o segundo é o tempo da Quaresma, que antecede a Semana Santa, com a Páscoa do Senhor. Nesses tempos, “exortamos a todos os irmãos que guardem, nestes dias, com toda a pureza, a sua vida e que afastem e apaguem, neste tempo santo, todas as negligências dos outros tempos”, escreveu Dom Lourenço de Almeida Prado, OSB, em sua obra “Na Procura de Deus”. E ressalta: “Acrescentemos, pois, nestes dias, alguma coisa ao nosso serviço habitual: orações particulares, restrição de alimento e bebida. Cada um oferecerá a Deus, espontaneamente, na alegria do Espírito Santo, alguma coisa a mais ao prescrito, isto é, retire do seu corpo algo de alimento, do sono, da tagarelice, para com desejo espiritual esperar o Senhor”.
Em sua homilia de 17 de fevereiro de 2021, na Missa de Quarta de Cinzas, o papa Francisco afirmou: “A Quaresma é uma viagem que envolve toda a nossa vida, tudo de nós mesmos. É o tempo para verificar as estradas que estamos percorrendo, para encontrar o caminho que nos leva de volta `a Casa, para redescobrir o vínculo fundamental com Deus, do qual tudo depende”. Com essa mensagem, ele mostra a pedagogia da Igreja, ao oferecer este tempo de preparação, de conversão, de renovação e purificação. Temos que buscar, a cada dia, e em todos os dias do ano, nos empenhar para fazer o melhor de nós e revermos também muito das nossas ações. Por isso a Quaresma propõe esse exame de consciência mais apurado, para que possamos “verificar as estradas que estamos percorrendo”, as nossas escolhas e decisões, para acertar melhor o passo, na estrada da vida. E acrescentou: “Quaresma não é compor um ramalhete espiritual; é discernir para onde está orientado o coração. Tentemos saber: Para onde me leva o ‘navegador’ da minha vida, para Deus ou para mim mesmo? Vivo para agradar ao Senhor, ou para ser notado, louvado, preferido? Tenho um coração ‘dançarino’ que dá um passo para frente e outro para trás, amando ora o Senhor ora o mundo, ou um coração firme em Deus? Sinto-me bem com as minhas hipocrisias ou luto para libertar o coração da simulação e das falsidades que o têm prisioneiro?” Com essa reflexão, o papa nos ajuda a entender melhor o sentido e o valor da Quaresma.
Saibamos aproveitar bem cada dia deste tempo de preparação para a Páscoa, especialmente neste tempo de provação, aonde ainda não foi possível superar a crise sanitária, em dimensão global, com todas as consequências na vida das pessoas, em todos os aspectos. Precisamos encontrar em meio a tudo isso, um sentido renovado da solidariedade e da esperança, para que tenhamos a fé fortalecida e a disposição de fazer o que está no nosso alcance para redescobrirmos o valor da vida. Nesse sentido, precisamos pedir a Deus que nos ajude, com um ânimo novo, para que encontremos meios de afirmar a vida nas circunstâncias em que ela se encontra mais fragilizada no nosso dia-a-dia. Com isso afirmamos, no tempo da Quaresma, o nosso gesto concreto de solidariedade.

Valmor Bolan é Doutor em Sociologia. Professor da Unisa. Ex-reitor e Dirigente (hoje membro honorário) do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras.

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