Ir para o conteúdo

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Artigos

Tempo de metamorfose

Quando menino, nas aulas de Ciências do curso Ginasial no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, fui tomado por um encantamento, muito além do que o real desejo de aprender, quando o professor explicou como nascia uma borboleta. Eu já arriscava escrever versos e, para um aprendiz de poeta, a borboleta é algo inspirador, de leveza, cor, magia.
Gostei de estudar a “Metamorfose”. Já era repórter e não sabia, sempre fui muito curioso. Um eterno perguntador: Por que? Por que? Por que? E havia lido, embora muito jovem para entender, o livro de Franz Kafka e ficado meio confuso (sempre detestei baratas). No caso da borboleta, a possibilidade de viver um processo de transformação que permita a possibilidade de voar, descobrir novos lugares, pessoas, viveres é fascinante.
Muitos anos depois, no final dos anos 1990, ao assistir o distópico filme “Matrix” (vencedor de quatro estatuetas do Oscar), das irmãs norte-americanas Lilly e Lana Wachowiski, observei que um dos personagens podia escolher entre despertar ou seguir adormecido na sua “matriz”. A metamorfose naquela falsa realidade capaz de libertar alguém do mundo sonhado, era como a das borboletas. Na época, já havia relido e entendido Kafka. Bem como, também era capaz de alcançar a transformação pessoal das irmãs Wachowiski.
Hoje, diante das questões políticas que nos perturbam, recordo os tempos do colégio dos padres jesuítas, quando então fascinado pelas descobertas biológicas que permitiam criar textos fora do mais do mesmo, achava instigante uma lagarta nojenta se transformar em uma arrebatadora borboleta.
O professor, educador sensível e inteligente, ensinava de verdade – não deixava apenas decorar para passar nas provas. De maneira lúdica, mostrou que a lagarta com o passar do tempo se tornava um ser guloso, esfomeado e, quando tanta comida a tornava obesa em muito ultrapassando suas necessidades metabólicas, começava a morrer. Nesse momento, acontecia algo fantástico: surgiam as células imaginativas.
Células imaginativas… Não é figura de linguagem, existem mesmo! Por serem novidade no sistema imunológico da espécie, são atacadas pelas últimas forças da morrediça lagarta. Como atuam em uma frequência própria não se deixam atingir. Vão se unindo, criando núcleos e, na sequência, conectam-se e se tornam ainda mais fortes. E acontece algo determinante: um gene adormecido desperta e traz um novo ser, e a lagarta alimenta a borboleta que nasce. E não pode ser ajudada a se livrar do casulo, porque caso isso aconteça não terá a necessária força para voar.
A metamorfose transforma a lagarta em borboleta, dando-lhe pela união de objetivos comuns uma nova existência capaz de – conscientemente – ser muito mais útil, porque na sua diversidade que alcança 25 mil espécies, esse inseto exerce um papel essencial à vida pela polinização dos ecossistemas, fonte de alimento e bem-estar. Um exemplo motivador para nós, humanos, do que seja awakening, o despertar.
Estamos vivendo tempos complexos, de insegurança e medo. Não podemos morrer por desconhecimento, por falta de respeito comum. Devemos fazer como ensina a metamorfose da lagarta ao se tornar borboleta. Ter coragem para transformar, unir para vencer os desafios que se impõem. Conscientes e motivados, embora as adversidades, podemos ser muito mais fortes e mudar o destino. A pandemia não pode ter sido em vão, apenas para roubar vidas.
A estrutura social deve evoluir no aprendizado, é hora de sair do marasmo da simples aceitação do óbvio, das mesmices que a auto-ajuda oferece e construir um mundo novo. Vamos superar o medo, o consumismo irresponsável, o desamor, o egoísmo, a corrupção crônica e derrubar a violência com educação e cultura. Há espaço para nos unirmos como as células imaginativas e formar núcleos que gerem mudança, transmutação, metamorfose.
O mundo é nosso, a vida é nossa. Vamos sonhar o sonho possível e vencer a pandemia construindo novos tempos de paz, com liberdade e justiça social. A indígena guatemalteca, Rigoberta Menchú Tum, da etnia Quiché-Maia, Prêmio Nobel da Paz (1992), disse: “Este mundo não irá mudar, a não ser que estejamos dispostos a mudar nós mesmos.”

Ricardo Viveiros é jornalista, professor e escritor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, membro honorário da Academia Paulista de Educação (APE)

Compartilhe: