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domingo, 22 de maio de 2022

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Telemedicina: condição provisória para distâncias inacessíveis usada aqui para alternar com atendimento presencial já sem qualidade

Diz um dito popular que “a pessoa ouviu o galo cantar, porém, não sabe onde”, para situações tipo ouviu dizer, não entendeu bem e acha que pode ser assim ou assado. Ou pior: chega-se a impor uma versão imaginada, quando o cálculo, na realidade, é completamente diferente.
Mais grave: ignorando (ou fingindo ignorar) e tentando ludibriar uma população esperançosa no benefício, sem enxergar a astuta, mas pobre, “alternativa de atendimento médico”.
Telemedicina pode ser entendida como um remendo de oferta de saúde, com fachada de inovação mas que é inaplicável como uma prática da boa Medicina, aquela com a presença do médico de formação verdadeira, completa e especializada.
É um absurdo uma cidade com 18 postos, para atendimento presencial, que poderiam servir com médicos selecionados por concurso, com formação plena (6 anos de curso mais 6 anos de Residência, conforme foi idealizado por prefeitos do passado.
Esse é o ideal da Medicina verdadeira, clássica, resolutiva e que oferece vínculo de confiança entre o paciente e o seu médico de preferência ou com quem se identifica.
O que é milenar e de princípio do Pai da Medicina Hipócrates, ainda vigente nos dias atuais, é o Médico de frente para o paciente, ouvindo sua história (queixa da doença), olhando em seus olhos, examinando o seu físico, para chegar a 80 por cento do diagnóstico e saber o que fazer.
Os outros 20 por cento serão confirmativos ou para elucidarem, com toda a “parafernália” da tecnologia que a modernidade hoje disponibiliza; lógico que é de ampla utilidade, porém, jamais substitutiva da clássica relação médico paciente, do conhecimento e da experiência do profissional, que levou 12 anos para ter um patamar mínimo de poder ser útil ao paciente.
O que temos hoje em Barretos?
Uma fortuna patrimonial de postos de atendimento presencial, bem distribuídos nos bairros que, ao invés de estarem ocupados por profissionais médicos de formação completa, estão ocupados, em alta porcentagem, por profissionais em fase de aprendizado, sejam estudantes de medicina, sejam residentes em fase incompleta, sem darem a necessária confiabilidade e qualidade no atendimento aos cidadãos da cidade.
Na Santa Casa, o único e principal hospital público, uma verdadeira descaracterização de função, com portas fechadas às urgências e emergências que, quando conseguem serem internados, saem com sofríveis resultados nos tratamentos aplicados em vários setores, com algumas poucas exceções.
Agora, a surpreendente novidade.
Atendimento telemático, com pessoal desconhecido, de formação rasante, como é o da medicina de família, com decisões que podem estar apoiadas em decisões de enfermagem, podendo chegar ao cúmulo de ter o Google mais facilmente consultado.
Para quem não sabe, a Medicina de Família foi criada no Brasil, para acomodar pós formados em Medicina, cuja maioria não terá jamais espaço numa Residência Médica de qualidade e de especialidade.
Em resumo, é uma medida capenga (de “especialização”) para socorrer a absurda e capenga formação de médicos, com excesso de vagas e falta absoluta de professores de medicina em nível grave e assustador.
Veja o absurdo de quantidade de faculdades de medicina no Brasil, certamente com aproximadamente 80 por cento sem condições de dar formação mínima aos jovens idealistas, mostrado no link sobre o assunto: https://escolasmedicas.com.br/estatisticas-nacionais.php . Observe-se que o Brasil possui mais de 350 faculdades de medicina, enquanto os EE.UU tem a metade dessas faculdades, com população 50 por cento a maior, e a China o mesmo número de faculdades tendo população 5 vezes maior.
A telemedicina é vista hoje como uma forma de caça níqueis de empresas de seguro de saúde e, noutro plano, com alguma explicação de utilidade, visando atender comunidades isoladas, em longínquos sertões e regiões ribeirinhas isoladas (o exemplo da Amazônia), para não deixar o cidadão zerado num mínimo de assistência de saúde pública. É um mínimo, melhor que nada. Ou seja, quase nada.
Vir oferecer essa “novidade” de atendimento ao cidadão barretense certamente é portar-se com negligência administrativa a oferecer possíveis imperícias e imprudência ao sonegar a verdadeira relação médico-paciente que é dogmática, doutrinária e insubstituível no exercício da boa Medicina.
As perguntas que não querem calar são diversas.
Uma delas: qual o médico gabaritado desse modelo monopolizado de atender saúde, esteve presente na apresentação da “novidade”? Prefeita e Secretário da Saúde, que não são médicos, não foram vistos acompanhados de nenhum assessor de medicina do Sistema monopolizado de Saúde de Barretos. Nem o Diretor Clínico, tampouco o Diretor Técnico, puderam estar presentes? Nosso Vice-Prefeito, que é um médico competente, teria aprovado essa ideia?
Pergunta muito pertinente: quem responderá pelos equívocos, erros, maus resultados, más condutas emanadas desse modelo de atendimento? Juridicamente, a Prefeitura Municipal (com os seus cofres) será solidária nas indenizações ou maus resultados que, naturalmente, poderão decorrer desse arriscadíssimo tipo de atendimento?
Será que o colega médico ou paramédico, atendedor das consultas nesse sistema, tem noção do risco de imputação judicial a que estarão sujeitos? Se no atendimento presencial a tarefa, por si só, já é difícil que se dirá, então, de uma falha no tal meio “telemático”, carente da devida credibilidade.
Quem vai responder pelos insucessos: a Prefeitura, o profissional implicado no procedimento ou o Gestor do Monopólio da saúde de Barretos? Há alguma dúvida sobre se o advogado “conclamará” os três?
Em suma, estão fazendo do barretense um mote de experiência dando feição ao que de início dissemos: ouviu-se o galo cantar, mas não sabem onde ou, o que é pior, sabem muito bem o que se pretende. SÓ NÀO HÁ SEGURANÇA, QUALIDADE E O DIREITO SAGRADO DO CIDADÃO MAIS CARENTE.
Vale a pena assistir a entrevista no Direto ao Ponto, TV Jovem Pan da respeitadíssima Prof. Dra. Angelita Habr Gama, autoridade médica e cientista respeitada mundialmente, de quem tive a honra e a graça de ser Residente em Proctologia por 2 anos: com classe, elegância, sabedoria e simplicidade ela dá o tom do que é a Medicina Clássica, colocando no devido lugar essas novidades “do momento”.
Lamentável: gostaria de poder aplaudir ou louvar boas surpresas em nossa cidade. Mas, infelizmente, é uma trapalhada atrás da outra.
Barretos não merece.

 

Dr Fauze José Daher
Gastro-Cirurgião e Médico do Trabalho,
formado pela Escola Paulista de
Medicina – UNIFESP. Mestre em
Ciências – Universidade Federal de
São Paulo. Ex-Diretor Clínico da Santa
Casa de Barretos, ex-Presidente da
Assoc. Paulista de Medicina – Reg.
de Barretos e Advogado

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