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sexta-feira, 14 de junho de 2024

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Tanta gente, ontem e hoje, ainda não crê na ressurreição

Os saduceus (Mc 12,18-27), descendentes de grandes famílias e latifundiários conservadores não acreditavam – como tanta gente, ontem e hoje – na ressurreição dos mortos.

A ressurreição dos mortos, porém, é o centro da fé cristã. “Se não há ressurreição dos mortos”, diz Paulo, “então Cristo também não ressuscitou; e se Cristo na ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a fé que vocês têm” (1Cor 15,13-14). Tudo se mantém com a ressurreição ou tudo desmorona sem a ressurreição!

A ressurreição supera a pretensão e a expectativa de qualquer pessoa, pois, diante da morte, todo mundo se vê impotente e – a não ser pela fé na promessa – não espera mais nada. A ressurreição não se deduz de nenhuma premissa nem é induzida por qualquer pesquisa. Só conhecida pela promessa de Deus, não pode ser produzida por nenhum esforço, mas tão somente acolhida como um puro dom do Seu amor.

Estamos falando da ressurreição para a Vida, não da reanimação de um cadáver (que, mais cedo ou mais tarde, morre de novo), que foram as ressurreições realizadas miraculosamente por Jesus. A ressurreição aqui “é a passagem não a uma outra vida, igual à precedente, mas a uma vida outra, nova e diversa, em comunhão com Deus, na plenitude de sua glória, da qual participa também o corpo (1Cor 15,35-58). Deus mesmo, de fato, é a nossa vida (Dt 30,20), como o amado é a vida de quem ama (Fausti).

Israel não acreditou desde o início na ressurreição. A fé na ressurreição veio aos poucos, cresceu lentamente. É um fruto maduro e tardio, cuja formulação mais elevada e precisa está em 2Mac 7: “Antes de dar o último suspiro, (o segundo filho) ainda falou (ao rei): ´Você, bandido, nos tira desta vida presente, mas o rei do mundo nos fará ressuscitar para uma ressurreição eterna de vida, a nós que agora morremos pelas leis dele”.

Por isso, Jesus pode dizer que Deus “não é um Deus dos mortos, mas um Deus dos vivos” (Mc 12,27). É uma das mais belas definições de Deus, em profunda coerência com a experiência bíblica. Se ele é Deus de nossos pais, que já estão mortos, ou é um Deus dos mortos, o que contradiz a fé de Israel, ou os pais já mortos devem conhecer nele uma vida além da morte. A argumentação é inescapável. De fato, toda relação lógica cessa quando um dos termos é derrubado. Se o autor da vida é meu e eu sou dele – e a morte existe! – existe a ressurreição dos mortos. O conteúdo do raciocínio é dado pela experiência do amor de Deus e da fidelidade, que, por sua vez, são dons do Espírito: o Espírito atesta que somos filhos e, portanto, herdeiros de Deus, herdeiros de sua vida (Rm 8,16ss) (Revista “O Pão Nosso”, ano 19, n. 222).

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