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terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Artigos

Sua Benção Vó

“Sou do tempo, em casa de vó era um lugar encantado, onde moravam lindas fadas madrinhas grisalhas, vestindo belos vestidos de chita”.
Essa poética frase do meu texto” Casa de Vó” resume a forma como eu e a maioria de nós, desse mesmo tempo, víamos nossas avós.
Hoje, vó, quero enxergá-la, e não apenas vê-la…
Quero enxergar o que realmente havia, por detrás daquele vestido de chita, sempre acompanhado de um avental, ora na cozinha, ora no tanque, mas sempre revestido do mais belo sorriso!
Quantas lágrimas já deve ter enxugado sem eu nunca perceber…Quantas dores já sofridas, muito antes de eu nascer…
Será que realmente casou- se com seu grande amor? Ou teve que aprender a amar, o par que a ti foi escolhido, e simplesmente obedeceu por pavor? Obedeceu primeiro ao pai, depois ao marido, sem nunca reclamar, aprendendo desde cedo suas vontades calar…
Vó, me dói hoje em pensar que nunca te contaram como nasciam os bebês, e teve que sozinha aprender no dia do casamento, que aquilo era o que toda mulher casada deveria fazer. Nunca pôde recusar, nem fingir dor de cabeça, pois lhe ensinaram que assim devia ser:
– Sempre sirva seu marido, aconteça, o que aconteça!
Um filho na barriga, outro no colo, e sua vida foi seguindo, assim como a da maioria das moças de sua época. Algumas, corajosas, vendo o destino das amigas, preferiram ficar só. O preço de se ter uma família lhes parecia caro demais, e abdicaram o privilégio de um dia ser mãe, e também vó.
O tempo foi passando, seus cabelos branqueando, seus filhos foram crescendo e seus netos chegando. Foi nesse tempo que eu nasci, mas só hoje seu sorriso compreendi. Seu sorriso era a defesa, para suportar com delicadeza tudo que a vida lhe proporcionou…
Sei que era feliz com sua família, adorava fazer doces e quitutes, mas seus desejos reprimidos, ninguém jamais perguntou. Todos achavam que somente isso a completava, que tinha tudo que sempre sonhou. Agora peço perdão, por não ter enxergado a tempo, o que ninguém nunca enxergou.
Te prometo que serei feliz, e talvez possa realizar algumas das coisas que você sempre quis. Para isso lhe peço licença, com muita reverência, e sua bênção vó.

 

 

Erika Borges, cronista e escritora,
autora dos livros: Crônicas e Reflexões
da Vida e Crônicas e Reflexões na Pandemia.
Mediadora de Biblioterapia.

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