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sábado, 25 de setembro de 2021

Artigos

Só será feliz a dois quem já for feliz sozinho

Todos ansiamos por ouvir um “Eu te amo” sincero e reconfortante, ao longo de nossas vidas. Queremos ser amados, desde que nascemos, pois acreditamos na força motivadora e milagrosa do amor e em todas as benesses que ele é capaz de operar em nosso viver. No entanto, apenas esperar passivamente por mudanças advindas de fora é inútil, uma vez que o centro de nossos sentidos se encontra dentro de nós mesmos.
Um dos maiores erros que cometemos, nesse sentido, e que compromete o nosso aprimoramento e aprendizado contínuos vem a ser exatamente nossa cegueira em relação ao que nós próprios nos afligimos, a tudo aquilo que é tão somente resultado de nossas ações e de ninguém mais. Tendemos, na maioria das vezes, a culpar quem nos rodeia pela nossa infelicidade, ou mesmo atribuir à roda do destino a causa de muitos problemas que nossos próprios fantasmas interiores ajudaram a se avolumar em nossa jornada. Devemos assumir nossa parcela de culpa – que não é pouca – nos aborrecimentos que atravancam a busca de nossa felicidade.
Somente enfrentando nossas próprias limitações, no sentido de tentar superá-las, é que estaremos seguros o bastante para compartilharmos nossas vidas com outrem. Caso ainda estejamos inseguros e infelizes em algum aspecto de nossas vidas, teremos grandes chances de nos lançarmos a relacionamentos problemáticos e descompassados. Os desencontros que minam nossos sentimentos íntimos acabarão fatalmente nos desencontrando também do outro aqui fora, na vida. Não podemos dar as mãos trêmulas, hesitantes, ou estaremos nos doando com vulnerabilidade, o que muito possivelmente será mal utilizado pela segurança – nem sempre confiável – alheia.
Precisamos, antes de tudo, estar seguros do que realmente queremos ao compartilharmos nossas vidas com outra pessoa, para que consigamos entrar em sintonia com sonhos e anseios que venham ao encontro daquilo em que acreditamos. Não podemos carregar pendências emocionais nessa construção do amor junto de alguém, pois assim não existirão bases sólidas e verdadeiras nos amparando quando das dificuldades inerentes à vida a dois. Se somos fracos sozinhos, seremos fracos mesmo em meio a multidões.
Estaremos sempre buscando nossa felicidade junto a alguém, incansavelmente – é a vida. O que não podemos é esperar que outra pessoa possa vir a completar o que nos falta, preenchendo milagrosamente uma felicidade que ainda não sentimos por inteiro. Ninguém poderá completar o que nos falta, porque temos que nos bastar antes de tentar compartilhar nossos sentimentos, seja com quem for.
É fato que nada do que nos disserem ou nos fizerem poderá ser mais significativo do que aquilo que dissermos e fizermos a nós próprios. Temos que nos abrir e nos lançar ao amor, sim, mas já seguros e completos, ou então o outro preencherá o que nos falta da maneira que ele quiser, até mesmo de forma a nos tornar ainda mais vazios e infelizes – e esse não é o tipo de amor a que todos temos direito, o amor desejável com que todos sonhamos a vida inteira. Enfim, permita-se amar e ser feliz ao mesmo tempo, nada menos do que isso, pois amor e felicidade devem ser sinônimos, pleonasmos viciosos em vidas que somam suas inteirezas harmonicamente. Todos os dias…

Prof. Marcel Camargo
Graduado em Letras e Mestre em “História, Filosofia e Educação” pela Unicamp/SP, atua como Supervisor de Ensino e como Professor Universitário e de Educação Básica.

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