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terça-feira, 16 de abril de 2024

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SETEMBRO AMARELO E A ESCUTA TERAPÊUTICA

O corpo concorda com a morte. E, por concordar, se entrega.

O Setembro Amarelo surgiu como uma campanha de conscientização e prevenção do suicídio, de alertas e informações para a sociedade sobre os sinais, causas e consequências desse grave problema de saúde pública. A campanha do Setembro Amarelo, tem como objetivo primordial quebrar o tabu e o estigma em torno do suicídio, abrindo espaços de diálogo e promovendo a conscientização sobre a importância da busca por ajuda profissional.
O vazio existencial sempre existiu, haja vista a Psicanálise criada por Freud ter diagnosticado os sintomas da histeria, melancolia, angústia e novas patologias que seguem acompanhando a humanidade, muitas delas provocadas por um vazio impreenchível. Para alguns, esse vazio pode ser por algum tempo amenizado pelo número de curtidas obtidas em publicações nas redes sociais, pelas mensagens trocadas nos aplicativos e outras plataformas de comunicações imediatas. Para outros, nem isso. Mas, as publicações e suas curtidas conseguem de fato preencher o vazio? Não para todos, já que agimos e pensamos de diferentes maneiras. Assim, por detrás da foto sorridente, da paisagem bucólica, do cenário paradisíaco pode habitar um sujeito encapsulado, preso à melancolia e outras emoções congêneres.
E por que isso ocorre? De certo, como no exemplo mencionado acima, porque as redes sociais apresentam instantâneos, flashes, recortes de pretensa felicidade, mas não produzem a palavra de encontro, de amor, do realmente se importar com o outro, porque a palavra é afeto, é acolhimento e é, sobretudo, a PRESENÇA.
É fundamental que a sociedade se mobilize para apoiar iniciativas como o Setembro Amarelo. Urge ampliar o acesso a profissionais de saúde mental capacitados, garantindo assim o atendimento adequado a indivíduos em risco.
A terapia pode ser um importante aliado ao sujeito com ideação suicida, para quando os amigos e a família, isolados nesse processo, não suportem o vazio do nada sentir. A terapia fornece suporte emocional, compreensão, intervenção integradora, práticas para compreender as motivações inconscientes que levam uma pessoa a se colocar em risco. A terapia intervém considerando a complexidade e singularidade do ser humano em suas emoções mais subjetivas.
Quando aplicada à prevenção do suicídio, a terapia pode auxiliar no diagnóstico e tratamento de patologias como a depressão, transtornos de ansiedade, de personalidade, dos traumas. Através da escuta atenta e acolhedora do terapeuta, o indivíduo pode explorar seus conflitos internos e elaborar mecanismos de defesa mais saudáveis.
Além disso, a intervenção terapêutica enfatiza a importância do cuidado com o outro, da empatia e da compreensão das dinâmicas familiares e sociais que podem estar contribuindo para o sofrimento psíquico. Nesse sentido, o trabalho da psicóloga pode não se limitar apenas ao indivíduo em risco, mas estender-se aos seus familiares e à comunidade, buscando um trabalho conjunto de apoio e proteção.
Pensar na hipótese do suicídio é imaginar que nada mais vale a pena, que se tornou impossível viver repetindo tudo da mesma maneira. Pensar no suicídio é pensar que uma morte não precisa ser a solução, mas, entender que a vida não precisa prosseguir nas mesmas escolhas. Morte é a interrupção brutal de uma história que sim, pode ter sua rota modificada. Por isso, escrevo o óbvio, mas que para muitos somente é percebido através das intervenções terapêuticas: tentar fazer diferente, ser diferente, agir diferente, sempre com apoio do terapeuta, família, amigos. Nunca só.
Para psicólogos e às famílias cabe a percepção de que escutar sobre o suicídio não é escutar sobre a morte, mas sim escutar sobre a possibilidade de novas histórias de vida que podem se constituir através da intervenção terapêutica.
O ponto de esperança para vida é a palavra. A palavra busca laço com a vida. Escutar sobre o suicídio não é escutar sobre a morte, mas sobre a possibilidade de reinvenção da vida.
Reflita.

 

 

Sada A. Ali
Psicóloga Clinica
CRP. 06/166892

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