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quinta-feira, 30 de maio de 2024

Artigos

Serrote quente

Aos 58 anos, dona Íris ainda carrega no corpo e na memória as marcas dos maus tratos e dos abusos sofridos nas mãos dos ex-companheiros. Com sentimentos que flutuam entre orgulho e ressentimento, mostra a cicatriz na perna, marcada com serrote quente pelo primeiro marido, com quem fugiu aos 13 anos para se casar.
Mas o destino de dona Íris começou a ser traçado bem antes. Nascida em um casebre de tábua nas barrancas do Rio São Francisco, na cidade baiana de Barras, sua mãe, vivendo em situação de extrema pobreza, fora abandonada pelo pai no seu nascimento, ao pedir-lhe que buscasse um quilo de açúcar. “Não veio nem o pai, que sumiu, nem o açúcar”, relata dona Íris. Ela só foi conhecer o pai bem mais tarde, aos 14 anos, quando estava grávida de seu primeiro filho, Israel.
A mãe de dona Íris entregou-a, aos sete meses de vida, à proprietária de uma fazenda nas redondezas. O que, para a mãe, naquele momento de desespero frente a toda a miséria, poderia ser a salvação tornou-se um pesadelo na vida de dona Íris.
Desde pequena, sofreu maus tratos. Mesmo sem saber ler e escrever, aos 13 anos, fugiu para se casar com um rapaz de 18 anos, filho de uma vizinha.
Ficou casada por dez anos e, durante este tempo, também foi maltratada pelo marido. “Me xingava, sumia, não levava comida em casa para dar dinheiro para a amante”, relembra dona Íris para, em seguida, contar a passagem que mais deixou marcas em sua memória e uma cicatriz eterna em seu corpo.
Sentada ao pé de uma árvore e grávida de seu segundo filho, teve a perna marcada por seu marido com um serrote quente. “Arrancou meu couro. Tenho essa marca até hoje”, conta.
Mais tarde, trazida para São Paulo por uma tia, conheceu seu segundo companheiro. Entretanto, a história de abuso não cessou. Aos 39 anos, decidiu se separar e, hoje, mora sozinha em Carapicuíba. Felizmente, dona Íris sobreviveu para contar sua história. Em 7 de agosto, quando são celebrados os 13 anos da sanção da Lei Maria da Penha, a realidade vivida por dona Íris ainda persiste em diversos lares.
Por parte do governo do Estado de São Paulo, ações integradas, com a participação ativa de diversas secretarias, têm o objetivo de intensificar o combate a esses crimes. Proteger as mulheres é um compromisso do Governador de São Paulo, João Doria. Já nos primeiros 90 dias de sua gestão foram inauguradas 10 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) que atuam em sistema 24 horas. Ao todo são 133 DDMs no Estado.
Outra inovação dessa administração foi a criação do aplicativo SOS Mulher, pelo qual aquelas que já contam com medidas protetivas podem acionar a polícia com um simples toque na tela do celular em caso de risco iminente. A Secretaria de Desenvolvimento Social integra a força-tarefa do Estado na proteção e no atendimento às mulheres vítimas de violência, com uma ampla rede socioassistencial, que inclui 24 abrigos institucionais. É dever de todos construirmos uma cultura de paz para uma sociedade mais justa e igualitária. E o governo de São Paulo está fazendo a sua parte.

Célia Parnes é Secretária de Estado de Desenvolvimento Social de São Paulo

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