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sábado, 20 de abril de 2024

Artigos

Saúde Mental dos Servidores Públicos no contexto do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo

Muito embora a saúde mental seja um problema antigo, ela ainda é permeada de estigmas. A discriminação, a desinformação e até mesmo o autopreconceito impedem que pessoas busquem e obtenham a ajuda adequada, para a devida recuperação.

Segundo dados do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), no Mundo, 14,6% dos anos vividos com incapacidade são causados por transtornos mentais, sendo mais de um terço deles devido a transtornos depressivos. O Brasil possui um dos maiores índices de depressão da América Latina. A prevalência da depressão entre a população adulta cresceu 36,7% entre 2013 e 2019, e atualmente alcança um a cada dez indivíduos com pelo menos dezoito anos de idade.

Apesar da dimensão do problema, sete a cada dez adultos com sintomas de depressão não recebem nenhum tipo de tratamento. Para diminuir essa lacuna, a Organização Mundial da Saúde recomenda incorporar serviços de saúde mental em todos os níveis de cuidado, incluindo a atenção primária.

Ainda de acordo com o IEPS, especificamente no ambiente de trabalho, os afastamentos processados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) cresceram mais de 30% após a pandemia, com mais de 200 mil pessoas afastadas de seus empregos, somente em 2021, por problemas como depressão, ansiedade e outros transtornos mentais.

O conceito de saúde carece, diante deste cenário que se apresenta, ser entendido de forma ampla, para abranger a parte física e a parte mental, sendo que uma influencia diretamente a outra, revelando-se essencial superar a subjetividade e a intangibilidade dos problemas concernentes à perda da saúde mental, na medida em que, por muitas vezes, são ignorados por parte do governo, da sociedade ou, até mesmo, por aqueles que padecem dessas doenças em silêncio, apenas para evitar que se descortine alguma “fragilidade de caráter” ou algum “desequilíbrio emocional”.

Quanto à relação de saúde e trabalho do setor público, temos muito a caminhar. A Administração Pública, historicamente, investiu mais em ações de controle, como a realização de perícias médicas e o monitoramento individual do absenteísmo, do que em ações coletivas de saúde, o que produziu pouco impacto na qualidade de vida e bem-estar.

Para entender a magnitude do problema específico da saúde mental no setor público, necessário se faz ponderar que servidores públicos carregam culturalmente uma imagem estereotipada de forma negativa, o que afeta a própria autoestima e o decorrente adoecimento. Tal cenário ainda é agravado pelas percepções da sociedade contemporânea de que a saúde de forma integral pode ser facilmente atingida com alguns padrões de comportamento a serem seguidos e que estão ao alcance de todos.

Fernanda Borges Keid é diretora de Saúde e Assistência Social do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo

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