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sábado, 25 de junho de 2022

Artigos

Santa Casa hoje: uma “terra desconhecida”

O grande objetivo de um hospital geral policlínico é o paciente respaldado, atendido, curado com a eficácia, atenção e a dignidade que merece uma pessoa humana.
Outra questão muito discutida hoje é a chamada Autonomia do cidadão, que é uma prerrogativa que todos, nessa vida, querem ter nos diversos momentos e situações possíveis.
Por que? Porque ela é, em resumo, estreitamente ligada à sensação de liberdade. Frases que a caracterizam: “eu quero assim, porque prefiro assim…”. “Eu não quero assado, porque não é o que me agrada…”. E a liberdade é uma conquista eclodida na Renascença, fazendo parte das três virtudes que marcam a Revolução Francesa: Igualdade, Fraternidade e Liberdade. Uma conquista que se sedimenta ao longo da história da civilização.
Verdade é que tudo tem seus limites, esbarrando no ponto em que afeta o direito de outrem, porque é um bem a ser compartilhado. Mas, essa regra é resguardada nas normas de atendimento ao público, nos códigos de éticas com retaguarda da Constituição Federal, em âmbito mais abrangente, mas bem estabelecida na saúde.
A medicina tradicional, apesar dos avanços fantásticos nos últimos 100 anos, não perdeu a essência criada pelo seu patrono, Hipócrates. Ponto alto, é a confiança em quem vai lhe “pensar”, palpar, interpretar e decidir o que lhe é melhor. E isso foi apanágio do paciente ao longo de sua existência, em que ele pode escolher, de preferência, em quem confiar.
Mais rigoroso ainda: quem vai lhe executar um ato cirúrgico, abordando as suas entranhas, muitas vezes com dúvida diagnóstica sanável pela boa formação profissional e pela sagrada e universal EXPERIÊNCIA profissional. Mais forte ainda: iluminar o caminho a seguir para solução de cada situação.
Sim…e onde entra a Santa Casa de Barretos? É uma questão que valeria um tratado, pela complexidade e triste realidade. Mas, indo ao foco da questão, nosso principal Hospital Geral foi deformado ao ponto de terem todos os seus médicos experientes, conhecidos, acreditados, especialistas afastados pela administração da Fundação Pio 12 da forma mais deselegante, desleal e autoritária possível, por uma figura que, em gestão de saúde, tem uma reconhecida competência para arrecadar dinheiro. Facilitado, sim, por uma causa que sensibiliza a qualquer ser humano: o câncer.
Mas, também, uma enorme despreocupação em prestar contas do destino do enorme volume de dinheiro público que recebe, seja oficial, seja doado pelas comunidades atendidas. E sendo recurso público, é obrigatório, imperativo que se preste contas da destinação…longe do que faz: tratando como se fosse um negócio próprio. Haja vista, uma CPI correndo aqui, relacionada e essa questão.
Hoje está evidente que o seu objetivo era assumir o hospital para que passasse a ser o hospital escola de sua faculdade de medicina particular, sem o que a faculdade seria imediatamente fechada pelas regras do MEC. Até houve aquiescência e espírito de colaboração dos mais de 160 médicos antigos do Corpo Clínico.
Agora: daí a marginalizá-los, obstruí-los e praticamente afugentá-los tem sido um grave pecado que a comunidade precisa estar ciente. Com uma questão prática: não há médicos tradicionais passando fome ou aperto qualquer. São imediatamente contratados. Graças a Deus.
O que há são pacientes infelizes, prejudicados, com resultados terapêuticos claramente incompatíveis com os tempos passados. Também centenas de enfermeiros e técnicos desligados, com sentimento de privação de algo que sempre fizeram com amor. Mas, Amor de verdade.
Pacientes tolhidos pela perda de sua sagrada Autonomia em escolher qual médico irá cuidar de seu caso ou da sua situação. Com médicos que tinham também Autonomia de conduta profissional, sem estarem submetidos a protocolos que visam economizar (dinheiro, sim).
E por que, Santa Casa “terra desconhecida”?
Ora, antigamente qualquer barretense, escolhia médicos que eram conhecidos pelos seus históricos. Caíam em mãos de enfermagem conhecida pela tradição e tempo de vida dedicados ao Hospital.
O atual gestor conseguiu fazer duma importante entidade com necessidade de estrita confiança, um ambiente de colaboradores que passam a se conhecer em pouco tempo e rapidamente são trocados. A meta é o interesse de gastar menos e, cada vez, menos ainda. Uma rotatividade visando economizar nível salarial, infelizmente com pessoal que mal chegam a ganhar alguma prática, trabalhando num penoso regime de pressão psicológica.
O cidadão atendido tem sido colocado em segundo plano. Essa é a verdade.
É abusiva a postura meramente de ensino, com pessoas sendo atendidas como “bonecos vivos” de ensino profissional, sem a devida estruturação de um Hospital escola com o rígido regramento exigido. Ou seja: em cada área de especialidade (que passa de 40 áreas) é necessário um preceptor, um mentor, um tutor e um Senior, PRESENCIALMENTE e não no papel. Além destes, mais 4 profissionais, para cada área, para atender a demanda com gabarito e, assim, transferindo conhecimento ao alunado.
É triste e lamentável que o Sr. Henrique Prata tenha a coragem e deslealdade de afirmar, em palestra a pessoas esclarecidas, que levou 4 anos para desbaratar uma quadrilha de médicos que roubavam a Santa Casa. Postura hipócrita diante de uma classe, por 100 anos, respeitada por todos os Provedores e Mesários com quem trabalharam, dedicando o mesmo respeito.
Na verdade, o que é preciso hoje, é esclarecer um recente desvio escandaloso de dinheiro, pela sua equipe de gestão (não médica), merecendo apuração policial, se não já está sendo investigado. Isso sim é um estranho silêncio diante de fatos que não deixaram dúvidas.
São questões que passam dos limites da tolerância, em que Prefeita Municipal, titular ou sua Secretária principal, passam a ser coniventes com uma situação inaceitável expondo toda uma população subjugada aos interesses particulares de uma entidade privada.
A Santa Casa precisa ser urgentemente retomada ao domínio da Prefeitura, oficial detentora da entidade e imediatamente estabelecer uma gestão especial que atenda, em primeiro lugar, o cidadão SUS (e todos os demais) com a qualidade que sempre existiu no passado.

Dr Fauze José Daher
Gastro Cirurgião –
Videoendoscopista
Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões
ex Diretor Clínico da Santa Casa de Barretos
ex Presidente da Assoc.
Paulista de Medicina
Reg. de Barretos
Advogado

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