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quinta-feira, 25 de julho de 2024

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Resgatando a Memória de Dr. Sérgio Nogueira Franco – Meu Pai , Meu Ídolo

De tradicional família ruralista, Sérgio Junqueira Nogueira Franco nasceu aos 23 de junho de 1905, sendo o mais velho de dez irmãos. Filho de Olivier Osório Junqueira Franco e Luiza Fisher Nogueira Franco, sendo ela descendente de austríacos e natural da cidade de Rezende no Estado do Rio de Janeiro.
Nascido e criado na Fazenda Quebra-Cuia, município de Barretos, fez seus primeiros estudos em Barretos. Quando jovem resolveu investir na agricultura plantando arroz, embora seu pai fosse pecuarista.
Como toda família tradicional antiga tinha que ter um doutor na família, e sendo ele o mais velho, foi para o Rio de Janeiro cursar o que ele escolheu: ser médico. Talvez essa “vocação” se deva ao fato do seu avô materno ser um médico famoso na cidade de Rezende, estado do Rio, onde deixou seu nome em vários estabelecimentos ligados à saúde: ele era conhecido como: Dr. Fischer; Na época só havia duas Faculdades de Medicina no Brasil: na Bahia em Salvador e no Rio de Janeiro. Dr. Sérgio escolheu no Rio porque lá estavam suas raízes.
Ingressou com louvor na Universidade Federal e Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, para cursar a Faculdade de Medicina e resolveu investir com empenho nos estudos. Muito inteligente, quando sobrava tempo, estudava línguas, inclusive incluiu no seu currículo o estudo da língua grega, tornando-se poliglota. Aprendeu também música e tornou-se um exímio “violinista”. Profundamente ligado aos estudos e às artes, gostava também de pintar e não perdia uma só exposição de artes, adquirindo muitos anos depois quadros valiosíssimos de Kossack, pintor russo e Acosta pintor espanhol, entre muitos outros. Durante o curso de medicina ele se especializou em biologia, matéria que gostava muito.
Naquela época não era obrigado fazer doutorado ou mestrado, mas ele fez os dois para aprimorar e aprofundar mais seus estudos.
Em 21 de abril de 1931 apresentou à Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, a dissertação da tese: “A perfuração do Estômago pelo Câncer” de 103 folhas, que foi defendida em 9 de junho do mesmo ano e aprovada com distinção e louvor. Sua tese numa época em que esta doença era praticamente desconhecida permaneceu nas faculdades de medicina do Brasil. Atualmente, graças ao seu filho Dr. Haroldo Junqueira Franco, engenheiro e falecido recentemente, sua tese se encontra no “Hospital de Amor” regido com muita propriedade e amor pelo Sr. Henrique Prata. Quando alguns de seus mestres precisavam se ausentar, pediam-lhe que os substituísse lecionando para seus colegas, missão essa que ele fazia com maestria. Também era um excelente orador.
Dr. Sérgio Nogueira Franco foi monitor das cadeiras de Anatomia Descritiva e Topográfica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e auxiliar doutorando da assistência municipal do Rio de Janeiro.
Formou-se com louvor aos 27 anos e retornou para Barretos sua cidade natal, com o título de Doutorado e Mestrado e também como um exímio Violinista ao cursar durante a faculdade o curso de música. Chegando mostrou com orgulho o diploma para seu pai. Logo depois se casou com sua parenta Genoveva Junqueira Franco, com quem teve 6 filhos; A segunda filha mais velha faleceu aos nove meses de idade. Eram 3 homens e 3 mulheres; atualmente somos 5 vivos.
Por algum tempo atuou como clínico geral em um consultório particular, posteriormente foi designado para trabalhar como o primeiro médico chefe no Centro de Saúde que funcionava na av. 23 com a rua 14 em um “casarão” que hoje pertence à Mariê e seus filhos.
Muitos anos depois o Estado construiu o novo prédio do Centro de Saúde, também na av. 23 com as ruas 32 e 34 que ficou conhecido como “Postão”, pedindo-lhe que acompanhasse as obras. Dr. Sérgio Nogueira Franco foi nomeado Para ser o 1º médico chefe, atendendo diariamente a população de Barretos, sem nunca ter faltado ao trabalho até se aposentar com 30 anos de trabalhos ininterruptos atendendo a população de Barretos. Seus auxiliares que ali trabalhavam sempre tinham uma palavra de elogio ou carinho para com ele. Quando alguém aparecia por lá, vendendo salgadinhos ou outras guloseimas, ele comprava para todos os funcionários, ao ponto de sua colega de serviço, D. Fiúca, o alertar de que alguns estavam aproveitando da sua bondade.
Em casa no horário do almoço, enquanto esperava os filhos chegarem do colégio, aproveitava o tempo para tocar violino, enchendo de emoção os seus vizinhos. Quantas vezes interrompia o almoço para atender pessoas que o procuravam fora do expediente, sem nunca reclamar. Para tirar carteira de motorista a população de Barretos precisava passar pelas suas mãos.
Também ocupou a função de Médico Sanitarista, percorrendo os estabelecimentos que precisavam da sua vistoria. Em determinadas épocas visitava os estabelecimentos escolares para consultar as crianças e adolescentes.
Era uma pessoa extremamente humilde e religiosa e não gostava de faltar à Missa. Todos os dias ao sair para o trabalho se benzia diante de um grande quadro do Sagrado Coração de Jesus, que ganhara de presente de casamento do seu cunhado, o prefeito Fábio Junqueira Franco. Dava atenção a todos que o procuravam independentemente de cor, raça ou condição social e financeira; era um grande ser humano. Correto, honesto e responsável, nos deixou com o seu exemplo boas lições de vida.
Nunca se vangloriou das inúmeras qualidades que possuía, preferindo viver no anonimato. Eu sempre digo que é na humildade que se encontram os grandes valores. Considero o meu pai um herói porque serviu na Revolução Constitucionalista de 1932, recém-chegado da faculdade, como médico, salvando vidas e colocando a sua própria em risco. Também foi um herói na luta pela sobrevivência, pois não recebia ajuda do pai e nem do sogro que eram muito ricos. Conseguiu ao longo dos anos com seu próprio esforço, com o simples ordenado do Centro de Saúde e algumas economias, sustentar sua família e comprar três sítios de bom tamanho, gado e um terreno em frente à sua casa na av. 23 entre as ruas 22×24 onde construiu uma bela residência. Neste local hoje funciona a Clinica Daher. Citei esses negócios realizados por ele para enaltecer mais esta qualidade que possuía, a de ser seguro e ter visão de negócios. Adorava a vida no campo onde deixou suas raízes e dizia que felicidade era acordar com o canto dos pássaros e o mugido do gado. Como artista que era, além de profundamente culto, possuía uma alma bondosa e sensível. Na filantropia gostava de participar de quermesses e festas com fins beneméritos, adquirindo prendas para ajudar e muitas vezes as doava para alguém que não podia comprar. Nunca negou ajuda para quem dele precisava.
Participou e colaborou na construção da “Casa do Médico”, onde lutou para que se construísse uma piscina e conseguiu.
Resgatando sua memória, como filha que o conhecia profundamente, posso dizer que o Dr. Sérgio Nogueira Franco fez parte da história de Barretos, embora nunca tenha sido lembrado em nenhuma crônica ou nome de rua ou escola. No momento em que escrevo esta homenagem ao meu pai, está sendo construído a nova sede do Postão; lutei muito para que levasse o seu nome, não por vaidade, mas por questão de justiça e reconhecimento por tudo que ele fez como Médico Chefe ao longo de toda sua vida; infelizmente não consegui. Depois que se aposentou teve uma depressão que o deixou na cama por oito longos anos, não se interessando por mais nada, mas perfeitamente lúcido e nunca deixou o seu cigarro que lhe servia de distração.
Faleceu no dia 16 de julho de 1980, aos 75 anos de idade, na Santa Casa de Misericórdia de Barretos.
Sua filha Maria Aparecida Junqueira Nogueira Franco

 

 

PY Junqueira
Professora ;Escritora;
Cronista; Poeta; Cantora;
Fazendeira e Produtora Rural
de Cana de Açúcar.

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