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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

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RELIGIÃO E POLÍTICA: A INFLUÊNCIA DA POLÍTICA NO VOTO DO RELIGIOSO 

Este artigo tem por objeto a questão do envolvimento da religião na política, mas de uma forma mais direcionada, não como uma temática de interseções e trânsitos entre o espaço religioso político, ou do engajamento de lideranças religiosas (OLIVEIRA JÚNIOR; NERIS, 2022), ou mesmo analisar a política como um campo especializado, limitando a religião apenas ao espaço privado das igrejas, esquecendo que a política não é apenas feita em praças públicas (DULCI, 2018), mas também dentro das escolas e, principalmente, dentro das igrejas, através de um testemunho de uma pessoa que goza de prestígio diante dos participantes das reuniões ou mesmo de uma citação de um líder religioso que abomina ou elogia o ato de um ou outro candidato a um cargo político. A política sempre estará inserida em qualquer contexto humano, pois ela está baseada na pluralidade dos homens (ARENDT, 2018).

A política também faz parte do dia a dia dos religiosos que frequentam as igrejas como fiéis seguidores. O voto é individual, e mesmo não pleiteando uma cadeira como vereador, deputado, senador, ainda assim participam da política ao elegerem um candidato, pois, mesmo com as questões levantadas atualmente de que religiosos não devem se envolver com a política, o simples ato de se deslocar para votar em alguém já o está envolvendo em política, suas predileções quanto a ideologia ou projeto de determinado candidato já diz suas orientações religiosas, e seu voto culminará, possivelmente, na colocação de alguém no status de decisor em questões morais, sociais, econômicas e religiosas.

Este voto tem influências dos líderes religiosos, e um questionamento a ser levantado seria: os líderes religiosos influenciam seus seguidores na escolha política? Desse modo, este trabalho pesquisa, através de uma revisão bibliográfica, esta questão, uma vez que o líder religioso pode se transvestir de uma aura carismática de profeta através do uso do poder simbólico que transforma a visão de mundo das pessoas (BOURDIEU, 2008) e aparenta poder quase mágico diante dos seus seguidores, se apoiando em uma legitimação baseada nas escrituras sagradas, auferida através de uma interpretação pessoal destes textos, com fins de guiá-los em suas decisões.

No Brasil, a presença de religiosos na política vem se expandindo nas últimas décadas, aumentando o interesse de uma classe brasileira que até então era avessa a assuntos atinentes à administração pública. Assim, para se entender o Brasil contemporâneo com suas injunções e transformações radicais no campo político, o ideal é se voltar para as mudanças ocorridas nos anos de 1980, quando, na visão de Pleyers (2020, p. 2), ocorreram o caminhar de dois processos concomitantes:

[…] por um lado, o declínio da influência dos católicos progressistas, os quais foram terreno fértil para organizações e movimentos progressistas que transformaram o Brasil nos anos 2000; por outro, a influência política, social e cultural crescente das correntes religiosas conservadoras e, em particular, das igrejas neopentecostais.

Esse último é um movimento que mundializa a manifestação temporal e espacial da ação do Espírito Santo, se abrindo, na perspectiva de Magliano Filho e Barreira (2020, p.), para novas formas de se vivenciar os movimentos religiosos anteriores do pentecostalismo, que eram “em grande parte presos ao fardo do tradicionalismo teológico, litúrgico, estético e evangelístico desta religião outsider em solo nacional”.

Os seguidores religiosos passaram a ser, conforme Nascimento (2018, p. 23), “peças-chaves nestas disputas, principalmente as pentecostais e neopentecostais”. Um dos acontecimentos mais notórios foi a candidatura do evangélico Anthony garotinho à presidência da república em 2002 e nos anos de 2010 e 2014, época em que as questões deontológicas estavam sendo discutidas na esfera pública acompanhada de um olhar crítico, por parte dos juristas, sobre a lidimidade da atuação dos religiosos no campo político e a situação do descomedimento do uso de poder nas campanhas eleitorais da época.

As articulações dos agentes representantes das religiões universais também foram observadas nas eleições de 2014, principalmente as candidaturas de evangélicos. O número subiu de 193, em 2010, para 270 neste pleito, um aumento de 40%. Como termo de comparação, somente 16 padres católicos são candidatos em todo o País. A bancada evangélica projeta um crescimento de 30%, podendo chegar a 95 deputados federais e senadores. Atualmente, ela conta com 73 congressistas, de acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (GUIDOTTI, 2015).

A presença dos religiosos na política cresceu em número, atingindo vários segmentos do setor público, como as câmaras municipais, as assembleias legislativas dos estados e até mesmo o Congresso Nacional, em Brasília, órgão constitucional federal responsável por elaborar leis e aprová-las como sua função de poder legislador, o que, consequentemente, gerou uma aproximação entre os políticos religiosos e a direção de suas denominações, procurando, conforme o fortalecimento dos credos, aprofundamento da consciência religiosa “onde os parlamentares possam se reunir para rezar, fortalecer a sua vida espiritual e aprofundar a sua consciência e seu conhecimento sobre o compromisso político do cristão” (ORO, 2011, p. 388 apud CHEUICHE, 2001, p. 5).

Com esta crescente e expressiva introdução de representantes religiosos na esfera pública, principalmente dos pertencentes às igrejas pentecostais, tomaram posse de cadeiras políticas, em 1986, apenas 18 (dezoito) candidatos, iniciando a chamada bancada evangélica, não sendo esses eleitos membros da tradicional elite política brasileira, mas políticos eleitos utilizando a base e conexões das igrejas, buscando representar os interesses religiosos através de apoio nas eleições.  Em 1990, esta bancada chegou a ter um bloco pluripartidário composto de 33 parlamentares, 22 deles sendo pentecostais (KINGSTONE, 2000).

Conforme Oro (2011), esse bloco se mantém até os dias atuais, e seu número tem oscilado ao longo dos anos. Em 1990, eram 22 deputados, sendo 19 pentecostais; em 1998, 53 deputados; em 2002, 69 deputados, sendo a maioria pentecostal, com destaque para a Assembleia de Deus (23 deputados) e a Universal (22 deputados); em 2006, 42 deputados; e em 2010, 63 deputados evangélicos. Desta forma, longe se está do tempo em que prevalecia, neste meio religioso, o ditado de que “crente não se mete em política”.

Mais recentemente, exemplificando a presença religiosa na esfera política, tem-se que, nas eleições de 2010, uma das pautas principais foi a questão do aborto e de outros temas em que as grandes religiões do Brasil se negam a posicionarem-se de outro modo a não ser de maneira tradicional – temas que integraram, de modo manifesto, o segundo turno da eleição presidencial (GUIDOTTI, 2015).

Samuel Antonio da Silva
Mestrando, pós-graduação, graduação, tecnólogo.

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