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segunda-feira, 04 de março de 2024

Artigos

Recape digital

Talvez, o leitor já tenha passado pela seguinte situação: planejou assistir a um filme, sábado à noite, pela Netflix. Mas, do nada, o sinal da internet simplesmente evaporou. Deu uma geral nas instalações domésticas, constatou que não tinha nada de errado. Detalhe: não choveu nem ventou no seu bairro. Então, você liga à sua operadora para reclamar. Só depois de uma exaustiva demora, consegue falar com um atendente humano. A notícia não é boa, furtaram o cabeamento da sua rua e não há previsão de reparo. O sonho do lazer virou pesadelo. Pior se você estivesse fazendo um relatório e o serviço fosse interrompido. Certamente, você entraria em pânico, só de pensar em encarar o chefe na segunda-feira.
A descrição acima não é ficção, mas a dura realidade que muitos sorocabanos enfrentam atualmente. Aliás, não é de hoje que nossa cidade foi tomada por uma onda de furtos de materiais de cobre, envolvendo cabos de conexão da internet e da rede elétrica. Infelizmente, os gatunos não perdoam nada, levam até fios elétricos de postos de saúde, escolas e hospitais. Isso causa um baita transtorno à cidade. Logo, quem age assim não pensa nos danos que causa à população, principalmente a quem depende 100% da rede mundial de computadores para o home-office. Na tentativa de conter esse descalabro, os vereadores aprovaram, recentemente, dois projetos de lei voltados para o setor de ferros-velhos, principal alvo dessa questão, uma vez esses estabelecimentos adquirem, sem nenhum controle, material de cobre. Ou seja, não observam a procedência do produto, algo que estimula a ação de quem deseja obter dinheiro à custa de danos a terceiros. Pela iniciativa da Câmara, os comerciantes terão que observar esses detalhes, ter nota fiscal da mercadoria e manter câmeras de vigilância ligadas 24 horas, para controlar a entrada e saída desses produtos. A proposta da vereança é válida, mas só isso não basta! Claro que o cabeamento subterrâneo seria a solução, porém o custo inviabiliza. Então, a Prefeitura deve fazer campanhas de conscientização para gerar empatia em quem comete esse crime. Segundo as autoridades, tal ação é praticada, em grande parte por dependentes químicos que vendem esse material para comprar drogas. Além disso, o crime é sazonal, ou seja, ocorre em períodos estratégicos, sendo que, com a chegada do Natal e ano novo, tal prática aumenta. Resultado: a fiação fica espalhada pela cidade. Até logradouros públicos ficam às escuras, como já aconteceu com a praça Márcia Mendes, no Jd. Vera Cruz.
Para quem duvida, basta dar uma olhada nos emaranhados de fios arrebentados que ficam suspensos nos postes. Além de colocar em risco a vida dos cidadãos — porque alguém pode tomar um choque, já que, quando furtam, arrastam toda fiação de uma só vez — também deixa a cidade com um aspecto horrível, como se estivesse abandonada.
Todavia, além de ficar sem conexão, o cliente ainda tem que implorar às operadoras o retorno o serviço que já foi pago. Muitas empresas não resolvem de imediato o problema, pois não dispõem de cabos em seus estoques, para uma reposição urgente. Já houve caso em que o cliente ficou uma semana sem internet, e a conexão só foi restaurada depois que ele ligou para Anatel. Detalhe: não houve o ressarcimento pelos dias em que ficou sem conexão.
Para concluir, é inegável que estamos reféns do mundo digital, não só para lazer e trabalho; mas para quase tudo: marcar consultas, pagar e receber, declarar imposto de renda, obter informações, pesquisas acadêmicas e até relacionamentos. Quando isso não existia, tudo era resolvido presencialmente; agora, ninguém quer abrir mão desse serviço. Ou seja, a sociedade está num caminho sem volta. Afinal, como disse Bill Gates, a internet é a estrada do futuro. Porém, ele só se esqueceu de que, no Brasil, essa via está esburacada e precisa urgente de um recapeamento. Nem que seja meia sola. Bom domingo a todos!

João Alvarenga é professor de redação

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