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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Artigos

Recaídas

O quanto são assustadoras? O quanto o indivíduo está preparado para enfrentá-las caso aconteça? Como é vista pela família, sociedade e até mesmo pelo próprio indivíduo? Como elas acontecem?

A recaída se tornou a parte obscura de um tratamento para dependência química… É aquele túnel que quem busca ajuda quer sair e quem está saindo não quer entrar novamente. É a escuridão diante da luz. É o que a maioria dos pacientes e familiares temem, que os assustam, só de pensar na possibilidade dela ocorrer.

Quando estudamos sobre dependência química nos deparamos muito com a seguinte frase: "a recaída faz parte do processo de tratamento". E eu mesma por diversas vezes me questionei da veracidade dessa frase, se realmente podemos acreditar que é assim que ocorre na realidade e hoje convivendo próximo a essa realidade começo a atender o seu contexto e sua aplicação. Realmente devemos compreender a recaída como parte do processo, como uma hipótese a ser considerada e avaliada com o paciente.

São raros os casos em que a pessoa passa por um único tratamento (seja de qual forma for) e consiga com êxito viver na sobriedade. O que presenciamos são casos que passaram por mais de um tratamento e por muitas recaídas para então se manter na sobriedade. E por que é assim? Por que acontece dessa forma?

A dependência química é considerada como uma doença comportamental, biológica e psíquica, ou seja, engloba o ser humano como um todo, dessa forma o tratamento deve também englobar todos esses aspectos objetivando uma mudança completa para então conseguir "conviver" com a doença que é incurável.

Acontece que quando o paciente começa a se tratar ele geralmente não consegue compreender, admitir em um primeiro momento que essas mudanças exigem esforço, renúncia, entrega em todas essas particularidades, ele geralmente se foca em um aspecto específico, faz de tudo para conseguir uma mudança em tal, mas os outros aspectos permanecem como estavam. Quando ele volta a conviver na sociedade novamente começa a perceber através de pequenas atitudes e pensamentos que o que ele mudou não foi suficiente.

É muito comum, por exemplo, a valorização da mudança do aspecto físico, a pessoa começa a se alimentar melhor, ocorre a desintoxicação, começa a praticar exercícios físicos e em mais ou menos 03 meses já há uma recuperação física, quando ele começa a olhar para si externamente se vê diferente, melhor e começa a acreditar que está preparado para enfrentar a realidade externa. Nesse caso ele está se baseando apenas em uma mudança que ocorreu, acreditando que a mesma é suficiente.

Passa algum tempo ele começa a repetir os comportamentos que tinha antes de busca ajuda, a frequentar lugares em que frequentava quando estava no uso de substâncias, ter alguns pensamentos que faziam parte do seu cotidiano antes do tratamento e a partir disso vai se caminhando para o mesmo caminho que se encontrava, ou seja, aconteceu a recaída.

Quando ele volta para o tratamento e começa a analisar como se deu essa trajetória começa a se conscientizar que o seu erro começou em acreditar estar bem por completo através de uma única mudança. Costumamos dizer que a recaída ela não é considerada apenas quando o sujeito faz o uso propriamente dito da substância, mas que ela começa através da regressão de alguns comportamentos, pensamentos e falas. O uso da substância é a última etapa da recaída.

 

Então é importante ficarmos sempre atentos nos nossos pacientes para percebermos esses "sinais" de recaída que são apresentados e ajudá-los através da orientação e conscientização do que estamos percebendo e observando.

 

Gabriela Nunes Malosso

Psicóloga – CRP 06/124683

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