Artigos
Quem é o homem de bem?
Na formação histórica e social do Brasil alguns pilares foram responsáveis por formar quem é e como pensa o cidadão brasileiro; desde os primórdios da colonização nas três primeiras décadas do século de XVI, com as relações de escambo com os nativos; passando pela formação da “sociedade de engenhos”, baseada no massacre e na escravização; ao surgimento das figuras mais centrais do cenário político e social brasileiro, os coronéis. Disso aos reflexos da modernidade, da industrialização, das inovações tecnológicas, da democracia, da sociedade atual.
Os pilares que formaram os “heróis” nacionais, os atores centrais da política e do cotidiano brasileiro, que tomaram a dianteira na posse dos discursos nacionais, podem ser representados em uma única letra do alfabeto (que não é de origem judaica e nem cristã, mas fenícia), a letra “P”. O pê de patrimonialista, de patriarcal e de paternalista. Três pilares e uma letra formando a base do pensamento de uma nação inteira.
O sentimento de nação no Brasil sempre esteve ligado a uma figura forte, mítica, máscula, provedora e protetora; o ideário do “homem de bem”, o centro dos engenhos, das lavouras de café, das grandes indústrias de base, dono de escravos, de terras, de casas, de emissoras, das casas legislativas, de tudo. A típica maioria (que não é a maior parte).
Mas que bem esse homem de bem representa? Os que escravizam? O que espancam a mulher de dia, e a noite trai? O que reprime? O que controla liberdades? O decide quem salva e quem morre? Ou o que salva cabeças de gado e condenam a vala os verdadeiros donos do Brasil, ou como era chamada antes do “homem-branco”, a terra de Pindorama.
O homem de bem representa um forte moralismo de uma sociedade imoral. A exímia liberdade de uma sociedade ainda presa em seus tabus.
Mas do que uma pessoa, ou uma figura, o homem de bem do Brasil é um discurso, contraditório, mas um discurso, forte e dominador, que silencia a todos a quem ele quer calar, e que foi construído nos mais de 500 anos de história de um país.
Leonardo Ferrari Silva, historiador formado pelo Centro Unificado de Educação Barretos (Faculdade Barretos), pós-graduado em educação e professor na cidade de Cosmorama-SP