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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

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Prosaico, proletário e um dia da mochila

Oi! Você que está aí e que costuma abrir o jornal para sua leitura diária, espero se surpreenda com o tema desta crônica. Mochila! Sim, a mochila.
Pode parecer trivial, mas não se vá! Dê uma chance à cronista.
A mochila pode ser bem eclética! Mamães carregam itens do infante; um pouco maiores, já com as rodinhas, percorrem o caminho para a escola; outros conseguem carregar uma parafernália que desentendem como foi possível caber; e, às mais refinadas, uma Louis Vuitton, Victor Hugo, Prada… aqui economizo espaço do jornal citando apenas essas grifes, pois a moda é tão surreal que, assim como ir à Disney ou viajar de avião e dividir o voo com empregadas, uma mochila de boa grife passou a ser vista com descaso, algo como ah!, se é tão comum, que tal algo que poucos têm?
E, se como sabemos, tudo passa pelo desejo, ter o que muitos desejam mas poucos possuem, pode ser o empoderamento para algo que não se vive na subjetividade. Indo além, na hipótese do desejo restringir-se apenas ao algo cobiçado, sendo o único a preencher o vazio existencial, poderíamos ter aí algo a ser discutido em transferência numa terapia ou análise. Há que se pensar!
Assim, definida a mochila nos âmbitos que aqui se fazem necessários, voltemos o olhar para aquela básica que você pode comprar em qualquer loja de departamentos, papelarias. Aquela mochila que está nas costas da maioria dos trabalhadores deste país que saem de casa pela manhã e nela já colocam o necessário para o dia: agasalho, guarda-chuva, marmita, documento – pobre e sem documento são combinações complexas. Assim, alcanço finalmente o ponto da crônica onde exponho quão intrigante pode ser carregar uma mochila na rotina prosaica do proletário trabalhador brasileiro.
O operário, naquela manhã, à saída do metrô, ouve a ordem para encostar contra a parede e outra, subsequente, para abrir a mochila! E logo o dedo em riste da mãe, já gritando as palavras de ordem, quando não cabia argumentação, lhe vem à mente: sem choro e nem vela. E com a mãe, assim como com o oficial, nunca tinha choro ou vela.
Esvazia tudo – recebe nova ordem.
Retira o que consegue, preocupado em abrir a carteira profissional no afã de mostrar estar a caminho do trabalho. No fundo da mochila, restam a lata da marmita e uma colher. A carteira é aberta. Outros documentos e o vale-transporte. Dinheiro? Não. Dinheiro não, por que não sobra. Mês comprido, salário chega no quinto dia útil e no sexto já acabou.
E essa latinha? Ah, doutor, essa latinha não tem nada. É a minha marmita.
Abra!
Vê-se um bicho encurralado, rodeado por hienas, dentes à mostra, prontas para atacá-lo. Medo e nojo. Nojo de todos que faziam roda para assistir sua humilhação. Medo? Desde que o mundo era mundo existia o medo, e com ele, não era diferente.
Retira o elástico que prende a tampa. O cheiro bom do cozido de salsicha que a mãe fizera logo às primeiras horas do dia se espalha pela rua. Salsicha picadinha e arroz. Um dia ovo, um dia uma salsicha, uma batata cozida; vez em quando, uma coxa de frango. A boca nem consegue salivar, o estômago parece ter levado um soco de direita do melhor pugilista na ativa. Só o pânico, só o medo, cena tantas vezes repetidas, mas sempre como a primeira. Jamais se acostumaria.
Mochila revirada, não sobra bolso. Está limpo. Pode ir. Ainda segurando a marmita aberta, lhe é atirada a mochila. As mãos trêmulas vacilam e o almoço fica espalhado em plena avenida. Talvez mitigasse a fome de algum cachorro de rua já que só veria comida ao voltar para casa. Mochila novamente nas costas, pernas bambas, retoma o trajeto.
As risadas, a cada passada menos audíveis, e nele o único desejo: voltar para casa vivo; desejo este que não cabia análise, tampouco terapia. Viver, libido única, e à ele se entrega, carregando na mochila da história, o seu melhor. O preto pobre da quebrada ganhara mais um dia de vida.

 

 

Sada Ali
Psicóloga e autora

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