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domingo, 07 de agosto de 2022

Artigos

Prosaico da criança brasileira

Certas religiões vivem a sexualidade com a culpa oriunda do pecado original, fato inexistente para outros povos, civilizações e culturas. Nesse planeta chamado Terra, em algumas culturas o incesto, as relações homossexuais e outras práticas, são como ritos de passagem para a iniciação sexual.
Esta não é a realidade do Brasil. As leis aqui são claras. O abuso sexual, estupro, violência moral, incesto estão proibidos e, as penalidades devem ser cumpridas.
Não é isso infelizmente, que sabemos ocorrer, com maior frequência, no cotidiano das famílias mais vulneráveis, locais onde a miséria já ocupou todos os espaços sobrepondo-se até à vergonha das vísceras familiares expostas. Os menos favorecidos divulgam ocorridos, mas não se pode ignorar que, essas práticas são também vividas pelas famílias abastadas, mas, a vergonha impede as denúncias. Manter a aparência para a sociedade pode ser mais importante do que acolher a dor da criança.
No Brasil, de acordo com a Unicef, 45 mil crianças por ano, sofrem abuso sexual (dados de 2021). São números impressionantes e se torna ainda mais cruel saber que essas crianças arrastarão angústias, traumas, medos talvez por uma vida, algumas ceifadas precocemente, tão precocemente quanto a iniciação sexual a que são submetidas e, até que a lei alcance o infrator e o puna, o mal foi criado.
Assim sabe-se que tem ocorrido com muitas meninas e meninos e, aqui apresento a história de Maria (nome fictício para este relato feito por um médico que atendia crianças na extinta FEBEM, atual Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente). Maria, nome que, poderia caber em João, Suzana, Helena, Pedro, qualquer um, tão rotineiras estas situações se reproduzem.
Maria! Se aquela criança acreditasse em destino e sorte, ao primeiro vagido já teria entendido ter nascido para sofrer. Mas ela não acreditava e ousou sorrir. Do pai, nada conhecia e a mãe para mitigar o sofrimento, a solidão e o medo daquilo que não sabia identificar, só sentir, acreditava em qualquer um que a fizesse pensar poder sobreviver a mais um dia. Só mais um dia, como na conta dos AA. Mais um dia de abstinência alcoólica, mais um dia de vida. A mãe de Maria, trinta anos exibidos num rosto de cinquenta. Ali a vida valia menos que um prato de feijão e a miséria era a senhora absoluta.
Na ausência da mãe, Maria era forçada a deitar-se com o padrasto e na presença desta, o chinelo lambia pernas, braços, nádegas com crueldade maior que os gritos ecoando nos corredores do cortiço onde moravam. Mais um grito ressoando para o nada que significava a vida de Maria.
E assim, aos seis anos Maria teve seu rito de passagem, a sua iniciação sexual. Aos oito anos ouve uma palavra que lhe parece a redenção: Praça da Sé, lugar onde poderia ser livre, fugir das humilhações, do sexo forçado, da violência física e verbal. Rouba o dinheiro da mãe, o suficiente para a passagem e embarca no ônibus. Oito anos e chega sozinha na Praça da Sé.
Ali tem a ‘sorte’ de ser adotada por menina de catorze anos, a nova mãe de Maria e juntas, passam a dividir dores, misérias, medos e crimes até serem pegas e internadas. Adictas em drogas, doenças físicas, morais, numa plena ausência de afetos, aliás o que era o afeto? Se existia desconhecia. Nascera para isso? A vida só lhe dera bordoadas.
Essa é a vida da Maria no gueto da exclusão onde a meritocracia é ouvida ao longe, muito distante, vislumbrada em tudo aquilo que não viveu, nos livros não lidos, na fome sentida em cada célula, nas escolas não frequentadas; meritocracia sussurrada feito lenda por adultos inteligentes, embriões que deram certo nos ouvidos de crianças culpadas por terem se tornado gente!

 

Sada Ali psicóloga
e autora

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