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Proibidos de existir?
Com a perspectiva de terem que aprovar seus planos municipais e estaduais de educação, um debate tem tomado destaque em sua elaboração: a questão da igualdade de gênero e se professores devem ou não discuti-la nas escolas públicas.Sabe-se que na formulação do PNE (Plano Nacional de Educação), por pressão da bancada conservadoraligada às igrejas evangélicas e católicas, foi retirado do seu texto final a formulação de que a educação deveria promover a superação das desigualdades educacionais, “com ênfase na promoção da desigualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual”. No texto final do PNE, consta apenas uma genérica “promoção da cidadania e erradicação de todas as formas de discriminação”.Não é mero detalhe. Trata-se de tornar invisível algumas desigualdades específicas.
Não vou entrar no mérito da importância de se debater essas questões diante de segregações, agressões e assassinatos diários causados pelo machismo, a homofobia e a transfobia. Por ser uma “questão social”, esses temas já deveriam ser debatidos nas escolas, é claro que adequando o conteúdo e a forma para cada etapa da escolarização.
Entretanto, a importância desse debate nas escolas não é apenas algo externo a ela. Não se devem debater as questões de gênero apenas por ser uma “questão social”, mas, sobretudo, por ser uma realidade nas próprias escolas.As crianças e adolescentes trazem questões que se impõem no cotidiano escolar, e dentre elas, as relativas à sua vivência e sua identidade.
O projeto apresentado e votado na Câmara Municipal de Barretos pode até retirar qualquer referência sobre gênero do currículo oficial, ou mesmo constranger alguns professores a evitarem a questão, mas pouco poder terão sobre o currículo real que acontece no dia a dia das relações escolares, e acima de tudo, não servirão para silenciar as demandas trazidas pelos próprios alunos no processo de sua formação.
Não é o debate sobre gênero na escola que vai orientar a sexualidade de uma criança, até porque não é apenas no espaço formal da escola que se constituem as identidades dos indivíduos.
A desgosto de toda “educação” que os pais despendem em suas famílias heteronormativas, muitas crianças já chegam à escola com as tensões de suas identidades em desenvolvimento. A modificação do texto do Plano Municipal de Educação é jogo de cena num espetáculo vergonhoso que somente servirá para arregimentar seguidores para igrejas e bases eleitorais. O que mais ameaça a pureza das crianças é essa hipocrisia de religiosos que escolhem a ignorância útil aos seus interesses sórdidos e mesquinhos.
O debate de gênero nas escolas é uma demanda dos próprios alunos, que trazem suas experiências para a escola e impõem a ela suas temáticas. Assim, a proibição do debate de gênero nas escolas é uma medida que afetaria mais os alunos que professores. São eles que projetos como esse tentam silenciar. Mas não conseguirão.
Igor Sorente é jornalista.