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Pés na terra e cabeça na tecnologia
O mercado de trabalho é extremamente dinâmico e suas mudanças parecem lentas. Mas, se for traçado um panorama de 15 ou 20 anos atrás até a atualidade, é possível perceber o quanto ele mudou. As expectativas das empresas não são mais as mesmas, assim como o comportamento e a formação dos executivos. Para o segmento do agronegócio, essa realidade também se aplica.
Segundo dados divulgados em dezembro de 2013 pela Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o PIB (Produto Interno Bruto) do agronegócio deve fechar 2013 com alta de 3,56% em comparação a 2012, totalizando 1 trilhão de reais. O mercado não só cresceu, e continua crescendo, como também se transformou nos últimos anos. Um fator decisivo para tal evolução foi a entrada de tecnologias cada vez mais avançadas, não só no campo, mas nas empresas.
Hoje, o mercado agro procura executivos com multiconhecimentos. A graduação acadêmica ainda é muito importante, mas o conhecimento restrito em agro pode trazer algumas dificuldades para a evolução da carreira de um executivo no setor. Mais do que uma visão ampla do agronegócio, as grandes empresas buscam profissionais com conhecimentos diferenciados para exercer funções estratégicas dentro de suas respectivas áreas.
Há carreiras que fogem dessa regra, como é o caso de quem trabalha com engenharia genética, por exemplo. Esses profissionais ainda são escassos no mercado nacional e, por isso, quanto mais experiência e conhecimento focado nessa especialidade, maior seu valor no mercado.
É preciso entender que o segmento agro cresceu, profissionalizou-se e evoluiu muito tecnologicamente. Para atender uma nova demanda consequente desses fatores, empresas vêm criando novos cargos e, agora, buscam executivos não só com sólida formação técnica em profissões tradicionais, mas talentos que possam agregar diferentes conhecimentos e habilidades e usá-los para o agronegócio.
A Gestão de Farming, por exemplo, tanto na área de grãos quanto etanol, exige executivos capazes de buscar e adquirir novas terras com menores preços para prepará-las física e legalmente para futura venda, ou uso para agricultura de precisão. Já para apostar na carreira de Gestor de Risco Agrícola, a exigência é de um profissional capacitado tecnicamente para o mapeamento de áreas para resseguro, e que tenha conhecimentos em underwriter agrícola e legislação do mercado de seguros. O Gestor de Acesso ao Mercado, por outro lado, tem a função de maximizar a penetração de mercado e buscar ferramentas financeiras para diminuir a perda cambial e o preço de commodities para a companhia. É um sem fim de novas demandas que só destacam o gargalo de profissionais qualificados sentido cada vez mais pelas companhias.
Com salários muito atrativos, não vejo que a dificuldade das empresas em captar executivos venha da falta de interesse deles. O desafio é encontrar um profissional que tenha todas as competências exigidas por esses novos cargos. O Brasil agora esta acordando, e dando mais ênfase a cursos administrativos e financeiros.
Meu conselho para engenheiros agronômicos, zootecnistas, veterinários e outros profissionais com graduação ligada ao agronegócio, é buscar especialização diferencial, seja na área financeira, gestão de pessoas e supply chain. Apenas o domínio da língua inglesa não é mais o suficiente. E tão importante quanto é a grande capacidade de adaptação, aprendizado rápido e visão global das questões.
O executivo que pensa estar completo tem grandes chances de se enganar. O mercado de trabalho exige cada vez mais dos profissionais, e ainda não descobrimos uma mágica que agregue os conhecimentos que faltam para cada um. É preciso colocar os pés na terra, a mão na massa e a cabeça na tecnologia, buscando novas especializações para se destacar em meio a muitos concorrentes.
Jeffrey Abrahams é sócio-gerente da Fesap Holding, detentora das empresas Fesa, Asap e Fesa Advisory e é responsável pela prática de Agronegócio da Fesa, consultoria especializada em busca e seleção de altos executivos.