sexta-feira, 23 de outubro de 2020

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Páscoa: zelados e zeladores!

Embora, de maneira geral, sejam considerados sinônimos, numa interpretação livre, penso que zelar é mais que cuidar. Embora contemple também o cuidado, a atitude de quem zela vai além, é mais profunda. O dicionário define zelar como ‘proteger, tomar conta de alguém ou algo com toda a atenção e interesse’. Enquanto o cuidado relaciona-se à manutenção e exterioridade que não necessariamente exige envolvimento, o zelo passa, antes de tudo, pelo coração, exigindo entrega, doação, comprometimento, amor e fidelidade.
Esta consideração favorece a compreensão acerca de muitas realidades e situações concretas da vida, sobretudo, aquelas diante das quais se exige de quem fora ‘apenas’ cuidado, que retribua com aquilo que não tem condições de oferecer, através de atitudes próprias de quem fora zelado. Impossível! A mãe cuidadora, o pai cuidador, o educador cuidador, o líder cuidador, o guia espiritual cuidador dificilmente receberão resposta diferente daquilo que ofereceram e, muitas vezes, nem mesmo à altura de que ofereceram.
Uma das premissas estabelecidas pelas ciências, das biológicas à psicológicas, é a relação existente entre o fundamentalmente hereditário e as influências advindas do meio externo como o ambiente, a cultura, a família etc. Há quem afirme que o ser humano é o resultado da combinação desses dois fatores, o hereditário e o meio. Nesse sentido, é oportuno refletir acerca do exercício da missão assumida, livremente por muitos e imposta a outros.
Se cuidar exige movimento dos braços e de tudo o que eles significam, e zelar exige envolvimento do coração e tudo o que ele significa, só está em condições de zelar quem, antes de tudo, vivera a experiência de ser zelado, só está em condições de amar quem vivera a real e profunda experiência do ser e do sentir-se amado. Penso que isso explica muita coisa, sobretudo no que diz respeito ao desespero de pessoas e à falta de credibilidade e falência de instituições que, originalmente, deveriam zelar e que se bastam ao cuidado.
Não se espera de quem possui a missão de zelar que sejam perfeitos. Espera-se deles a atitude fundamental daquele que as Sagradas Escrituras apresentam como ‘Bom Pastor’ (João 10,1-10): a capacidade de dar a vida pelo rebanho consumindo-se por amor, com amor e amando os que lhe são confiados.
Mais que capacidade, trata-se de condições, e estas dependem do grau de consciência, liberdade e responsabilidade com os quais permitimo-nos ser zelados e zelamos. No clima do tempo pascal travemos uma genuína relação com Cristo ‘Bom Pastor’, do qual ninguém tira a vida. Ele se oferece pelos seus convertendo-se em Senhor, cuja missão fundamental é promover e defender a vida.

Ivanaldo Mendonça
Padre, Pós-graduado em Psicologia

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