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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Artigos

Para ouvir o silêncio

A ansiedade não é percebida como o mal do século por acaso: a cultura da informação vem gerando cada vez mais estímulos externos ao ser humano, cujas emoções se tornam diretamente afetadas por essas constantes influências. Mesmo com o livre-arbítrio humano de agir como bem preferir, esses estímulos externos contínuos podem nos afetar a tal de ponto de dominarem nossas ações? Somos movidos por nossos próprios valores ou pelos valores que percebemos mais frequentemente diante de nossos olhos?
Uma orquestra desencontrada de ruídos nos acompanha noite e dia.
Trânsito caótico, comércios, obras sem parar. O desenvolvimento das economias globais apresenta uma constante taxa de crescimento da urbanização.
Só no Brasil, o país era majoritariamente rural até meados da década de 60. Ao longo das décadas, esse panorama foi mudando de tal maneira que já está mais do que invertido. Para 2020 é estimado que mais de 87% dos brasileiros habitem áreas urbanas perante 13% de áreas rurais. E a tendência é de que ainda mais pessoas passem a morar em cidades.
Esse avanço da urbanização expandiu gradualmente o volume e a intensidade dos sons que nos cercam. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um limite de 50 decibéis diários para a manutenção da saúde da audição humana, os bairros mais movimentados chegam a registrar índices médios de aproximadamente 80 decibéis em nossos ouvidos. A exposição continuada a níveis prejudiciais de ruído podem, além de provocar perda gradual da audição, ocasionar impactos no sistema nervoso causadores de dores de cabeça, estresse e dificuldade de concentração.
Por mais que se busquem barreiras acústicas e outras proteções para abafar o incômodo, a poluição sonora nunca deixa de estar presente de alguma forma. Nosso cenário urbano torna o ruído exterior inevitável. E por isso é premente a potencialização do nosso silêncio interior.
Não permitir que o mundo de fora perturbe a nossa própria serenidade pode soar um desafio e tanto na prática. Contudo, possuir esse autocontrole dos sentidos é essencial para que nossas emoções não sejam arrastadas conforme as ondas e nos mantenhamos donos de nossas ações assim como o Deus Shiva não se abalava nem com terremotos que ocorriam durante sua meditação.
A exemplo disso, conta-se que certa vez um louva-a-deus enfrentava uma cigarra, esta bem maior que o primeiro e que sempre intimidava os adversários com seu potente som característico. Ainda assim, o louva-a-deus se manteve firme, aplicando golpes rápidos e precisos para derrotar a cigarra. Foi o que teria acarretado a criação do estilo louva-a-deus, famosa posição de autodefesa no kung fu.
As distrações não vão deixar de acontecer. Portanto deixe-as virem. Contudo, permita que deixem a sua mente naturalmente da mesma forma que entraram. Pois o que realmente deve ficar é o seu objetivo, a sua missão principal.
E, para fortalecer essa noção do verdadeiro propósito que lhe cabe trilhar, é preciso silenciar. Silenciar o corpo, silenciar o espírito. Mente que se esvazia de modo a despertar o autoconhecimento necessário para que as nossas ações se tornem equivalentes às nossas pretensões. De maneira que os golpes do louva-a-deus estejam em plena sincronia com o objetivo de preservar sua vida.
Assim poderemos começar a controlar nossas atitudes ao invés de sermos dominados por elas. Para enfim nos tornarmos donos de nosso próprio destino.

Leandro Dupré é um administrador, escritor e poeta paulistano. Autor dos livros de ficção “A era i-Racional”, “Samádia – A lenda da ilha perdida”, bem como da série “O Pinheiro”, todos publicados pela Editora Clube de Autores.

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