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Pão, vinho, porta
Muita gente, incluindo alguns que se pensam católicos, inferem que tudo o que Jesus Cristo falou, na verdade, ele usou linguagem figurativa, como, por exemplo, “Eu sou a porta”, como em João (10, 9): “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será salvo”. E ainda “Eu sou a videira verdadeira” (Jo 15,1). Querem entender que Cristo não seja literalmente uma porta de madeira, ou uma árvore.
E da mesma forma, intuem para a instituição da Santa Ceia: Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim. Assim, todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice lembrais a morte do Senhor, até que venha (1 Cor 11,23-26).
Não custa dar uma olhada no dicionário para verificar que porta não é necessariamente a peça que fecha uma passagem, a própria passagem pode ser também uma porta. E a própria palavra “figurativa” significa simbólica. Ou seja, o fato de que a maioria das pessoas não é familiarizada com o abstrato, não se pode entender que uma palavra só tenha significado concreto. Ou único.
Cabe ler com atenção João 6: um menino que tinha cinco pães de cevada e dois peixes.
Jesus mandou sentarem aqueles homens em número de uns cinco mil. Jesus tomou os pães e rendeu graças, e distribuiu-os às pessoas que estavam sentadas, e igualmente dos peixes lhes deu quanto queriam. Recolheram o que restou e encheram doze cestos. Em seguida caminhou sobre as águas em direção da barca que estavam os apóstolos. Então Jesus disse: Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. E se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Mas há alguns entre vós que não creem.
Assim, em sentido religioso, ou espiritual, Jesus é a porta para a salvação, tanto quanto o pão é de fato o corpo de Cristo e o vinho é o sangue de Cristo e se impõem como novo ritual, em substituição ao da Páscoa judaica instituída em Êxodo, especialmente (Êx 12,47): “Toda a assembleia de Israel celebrará a Páscoa”. Para a festa judaica, incircuncisos eram proibidos de participar, na Páscoa Cristã esse requisito foi extinto. Se o sangue do cordeiro salvou os primogênitos israelitas, o de Cristo é o sangue da Salvação.
E assim como era obrigatório para os israelitas celebrarem a Páscoa, para o cristão também o é (fazei isso em minha memória). Mas é João quem nos faz refletir: no princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. Todos aqueles que o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus (Jo 1,1- 10).
Mario Eugenio Saturno é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.