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sábado, 20 de julho de 2024

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Os riscos e a falta de regulamentação do uso de dados genéticos de pacientes por operadoras de saúde

O acesso aos dados de pacientes no Brasil é sempre um tema polêmico. A Súmula nº 609 do Superior Tribunal de Justiça (STJ) trouxe à tona uma discussão relevante acerca da utilização de dados genéticos por operadoras de saúde. Esta súmula estabelece que a recusa de cobertura securitária sob a alegação de doença preexistente exige a comprovação de má-fé do beneficiário, ou seja, que este sabia e não declarou a condição preexistente ao contratar o seguro. No contexto de dados genéticos, a preocupação surge pelo potencial uso dessas informações pelas operadoras para investigar doenças preexistentes dos segurados de forma mais precisa.

Embora a intenção seja proteger os consumidores, a interpretação dessa súmula pode abrir brechas para que as operadoras de saúde acessem dados genéticos dos potenciais segurados, levantando questões éticas e jurídicas.

Essa situação toca em dois pontos fundamentais do direito brasileiro: o direito à privacidade e o acesso à saúde. Por um lado, o acesso a dados genéticos por operadoras de planos de saúde poderia violar o direito à privacidade e à intimidade dos indivíduos, garantido pela Constituição Federal, além de contrariar os princípios da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que estipula a necessidade de consentimento específico e informado para tratamento de dados sensíveis, categoria na qual se enquadram os dados genéticos.

A brecha levantada pela súmula do STJ demanda uma reflexão crítica sobre até que ponto as operadoras podem ir na investigação de doenças preexistentes sem violar direitos fundamentais. Ainda que a súmula não trate diretamente do acesso a dados genéticos, sua interpretação deve considerar os limites impostos pela legislação de proteção de dados e os princípios constitucionais do direito à saúde e à privacidade.

Importante destacar que a Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso X, garante a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas. Além disso, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica os dados genéticos como dados pessoais sensíveis, exigindo consentimento específico e destacado para o seu tratamento.

Diante das brechas interpretativas da Súmula nº 609 do STJ, torna-se necessária uma regulamentação específica sobre o acesso a dados genéticos por parte das operadoras de saúde. Essa regulamentação deve estabelecer limites claros para a solicitação e utilização desses dados, garantindo a privacidade dos indivíduos e evitando práticas discriminatórias.

Portanto, é essencial que o direito à privacidade e a proteção de dados pessoais sejam resguardados, evitando práticas discriminatórias e garantindo a autonomia dos indivíduos sobre suas informações genéticas. Somente com um debate amplo e uma regulamentação adequada será possível encontrar um equilíbrio entre os interesses das operadoras de saúde e a proteção dos direitos fundamentais dos consumidores.

Natália Soriani é advogada especialista em Direito da Saúde

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