sábado, 28 de novembro de 2020

Artigos

Os funerais no meu tempo criança . .

Caro leitor,
Se aproxima o ‘Dia de Finados’, um dia de reflexão e um preito de saudades eternas. Quando visito o cemitério, penso, quantas histórias estão sepultadas ali? São personagens que fizeram a história da cidade, quer seja ele um vulto histórico até o mais humilde trabalhador. São muitas histórias de vida, umas alegres, outras tristes e em variadas ‘causa mortis’. Alguns possuem jazigos monumentais, verdadeiras obras de arte, enquanto que, outros são sepultados em túmulos simples ou em covas abertas na terra, sem nenhuma estrutura.
Em Barretos, no Cemitério da Paz, que é gerido pelo poder público, no alto da avenida 21, a primeira pessoa a ser sepultada no local foi o presidente da Câmara Municipal, sr. Antonio da Cunha Vasconcelos, no dia 7 de dezembro de 1899, três semanas antes da inauguração oficial do mesmo, que ocorreu a 1º de janeiro de 1900. De lá para cá, sepulturas e mais sepulturas foram abertas. Hoje, apesar das ampliações feitas ao longo do tempo, a área não comporta mais sepultamentos em novos túmulos e sem condições de expansão territorial.
Na minha infância, nos anos de 1960, presenciei vários velórios e acompanhei vários cortejos até ao cemitério. Lembro-me, entre outros casos, o falecimento de minha tia Ema, irmã de meu pai; do ex-prefeito e deputado estadual na época, o sr. Benedito Realino Corrêa, que foi assassinado; do sr. Joaquim de Freitas Borges, meu vizinho, morador antigo de Barretos, com cerca de 90 anos ou mais, nascido em meados do século XIX, e retratado no livro ‘Barretos de Outrora’, de Osório Rocha, como fonte de informação de fatos acontecidos nos primeiros tempos de nossa cidade; em 1968, faleceu o meu tio Roberto Colugnati e, em 1969, a minha tia Rosa, sua viúva. Ainda naquela década perdi dois amigos, colegas de escola, o Valdeck, que morreu afogado na lagoa existente perto da Igrejinha da Graia, onde se encontra, hoje, o loteamento do Jardim de Allah e o Nilson Custódio, no Córrego do Aleixo, nas imediações da avenida 7 com a rua 6, onde num dia de chuva ele tentou atravessar o córrego, quando ia para o SESI, onde estudava, se equilibrando em um cano de esgoto, escorregou, caiu nas águas, sendo levado pela correnteza. Outra lembrança da mesma época, é que, cheguei a vender velas e ‘flores de papel crepom’, próximo ao Campo do Motorista, no caminho do cemitério, junto com a dona Ana, minha vizinha, que fabricava as flores.
Hoje, Barretos, conta com o Velório Municipal e do Cemitério Jardim das Oliveiras, sendo que, anteriormente, havia somente o velório da Santa Casa, anexo àquele nosocômio. No entanto, até a década de 1960, era costume velar o morto, em sua própria casa, na sala, junto de sua família e dos amigos. A funerária levava cadeiras para acomodar a todos, preparava o cafezinho e também o lanche para que o pessoal atravessasse a madrugada. As ‘notas de falecimentos’ eram veiculadas através das emissoras de rádio locais, e em cidades menores, no serviço de ‘alto falante’. Na época havia o caixão totalmente de madeira e aqueles, para os mais humildes, só com armação de madeira, o resto era pano na cor roxa e na cor branca para as crianças e as virgens. Quanto ao cortejo fúnebre, uma verdadeira procissão, com acompanhamento de parentes e amigos, percorria as ruas e avenidas da cidade com destino ao cemitério, não sem antes passar pela Igreja Matriz, hoje Catedral do Divino Espírito Santo, para que o padre encomendasse a alma, caso o falecido fosse católico, depois seguia pela avenida 21 até ao cemitério. Em sinal de respeito, à medida que o cortejo passava, as casas comerciais tinham o hábito de baixar as portas até ao meio, as pessoas paravam e os homens tiravam seus chapéus.
Quanto ao luto, seguia-se um período para os membros da família, enquanto que mulheres usavam luto fechado, isto é, se vestiam de preto durante um bom tempo, os homens usavam uma tarja de pano preto na manga da camisa ou na lapela do paletó.
No entanto, o ‘Dia de Finados’ para uma criança, também era um dia especial, pois, além acompanhar a família ao cemitério para rezar para os entes queridos, era uma espécie de passeio, na volta, ganhava uma deliciosa melancia, fruta mais vendida nas imediações do campo santo.

José Antonio Merenda
Professor, historiador e presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

Compartilhe: