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terça-feira, 20 de maio de 2014

Artigos

Os clérigos de Francisco

Jesus (Mt 20,25-28), disse aos seus discípulos: sabeis que os chefes das nações as subjugam. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir. 
No Evangelii Gaudium, o Papa Francisco mostra sua preocupação com a Igreja e com os responsáveis por ela, ou seja, todos nós. Analisa o problema, vê o que falta e através de uma expressão marcante revela como quer que os cristãos ajam: como é bom que sacerdotes, diáconos e leigos se reúnam periodicamente para encontrarem, juntos, os recursos que tornem mais atraente a pregação! 
E, não satisfeito ainda indica o que quer uma linguagem positiva. Não diz tanto o que não se deve fazer, como sobretudo propõe o que podemos fazer melhor. E, se aponta algo negativo, sempre procura mostrar também um valor positivo que atraia, para não se ficar pela queixa, o lamento, a crítica ou o remorso. Além disso, uma pregação positiva oferece sempre esperança, orienta para o futuro, não nos deixa prisioneiros da negatividade (§159). 
Para o Papa, a Igreja tem necessidade de ter um olhar solidário para contemplar, comover-se e parar diante do outro, tantas vezes quantas forem necessárias. E isso em uma civilização paradoxalmente ferida pelo anonimato e, simultaneamente, obcecada com os detalhes da vida alheia, descaradamente doente de morbosa curiosidade. 
Neste mundo, os ministros ordenados e os outros agentes de pastoral podem tornar presente a fragrância da presença solidária de Jesus e o seu olhar pessoal. A Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – nesta “arte do acompanhamento”, para que todos aprendam a descalçar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Ex 3, 5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã (§169). 
O Papa ataca um preconceito escondido no nosso íntimo: ninguém deveria dizer que está longe dos pobres porque a sua vida o obriga a estar mais atento a outras incumbências. Isso é uma desculpa e é frequente nos ambientes acadêmicos, empresariais e profissionais, e até mesmo eclesiais. 
Embora se possa dizer, em geral, que a vocação e a missão próprias dos fiéis leigos é a transformação das diversas realidades terrenas para que toda a atividade humana seja transformada pelo Evangelho, ninguém pode sentir-se dispensado da preocupação pelos pobres e pela justiça social. A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da pobreza são exigidos a todos. 
O Papa ainda manifesta sua preocupação com a acomodação dos cristãos e para que não se cumpra sua pior previsão, reproduzo suas palavras: temo que também estas palavras sejam objeto apenas de alguns comentários, sem verdadeira incidência prática. Apesar disso, tenho confiança na abertura e nas boas disposições dos cristãos e peço-vos que procureis, comunitariamente, novos caminhos para acolher esta renovada proposta (§201). 
 
Mario Eugenio Saturno (cienciacuriosa.blog.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano. 

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