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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Artigos

Os caminhos das boiadas

Quando se comemora o 60º aniversário da Festa do Peão de Boiadeiro, cuja repercussão mundial é incontestável, levando o nome de Barretos a ser conhecida internacionalmente, sob a batuta de “Os Independentes”, são necessárias algumas considerações. Para que isso acontecesse muitos caminhos foram percorridos. A festa teve seu início, ainda em meados do século XX, com o intuito de homenagear a figura do peão de boiadeiro, enaltecer seus feitos, que com ousadia rasgava o sertão brasileiro, transportando sua mercadoria, o gado, em comitiva. O peão de boiadeiro passava maior parte de seu tempo conduzindo a boiada, mantendo-a dentro de uma ordem para que se evitassem  estouros e fugas, em um trabalho que significava a própria vida, se tornando um nômade, deixando suas marcas através das estradas, dos pontos de pouso, o toque do berrante e a culinária típica de um estradeiro, em um constante diálogo com a natureza, sendo assim possuidor de uma importância histórica, cultural e socioeconômica. Esses caminhos eram conhecidos como corredores ou estradas boiadeiras, que levavam estes homens conduzindo milhares de cabeças de gado egressas, principalmente, do centro-oeste brasileiro, com a finalidade de abate no frigorífico, o primeiro da América Latina, instalado em Barretos, a partir de 1913, por dois grandes homens de visão: o primeiro, o Conselheiro Antonio Prado, grande empreendedor, e o segundo, o prefeito de Barretos e chefe-político, Cel. Silvestre de Lima, ambos abolicionistas na época do Império e, na República, pertenciam ao PRP – Partido Republicano Paulista.   
Em Barretos, até 1929, a boiada chegava pelo São Domingos, onde hoje está localizada a Estrada das Comitivas, sendo conduzida pelos corredores boiadeiros até chegar ao Frigorífico, isto é, seguia rumo à rua 4 e por esta até à avenida 7, virando à direita, seguia até à rua 20, virando à esquerda até o seu destino; ou, passava pelo pontilhão da Estrada de Ferro, descendo a rua 30 até a avenida 3 ou 1, virava à esquerda até a rua 20 e depois à direita até ao frigorífico.
Há algum tempo fomos procurado pelo dr. Paulo Murta, dentista aposentado e morador antigo de Barretos, que nos mostrou um croqui dessas estradas boiadeiras, antes e depois de 1929, feito, a seu pedido, por Antonio Manso Bernardes, o Toninho Manso, falecido em 2012, e ainda uma cópia do Relatório do Exercício de 1929, apresentado à Câmara Municipal de Barretos pelo prefeito Riolando de Almeida Prado, cujo original pertence à sua biblioteca, constando na página 3, a seguinte informação:   “[. . .] Foi construída uma estrada para boiadas, as quaes atravessavam e não mais atravessam a cidade, gastando-se nesta construcção, em desapropriações e despesas dos respectivos processos, cerca, aterros e ponte a quantia de 26:208$600”. Desta forma, a boiada continuava chegando pelo São Domingos, no entanto passou a seguir os seguintes trajetos: do São Domingos ia até à rua 4 e desta até avenida 17, dobrava à esquerda até passar a charqueada Minerva, seguindo em frente, passando onde hoje é a Fazenda Municipal, entrando à direita, atravessava a ponte sobre o córrego até encontrar os trilhos da estrada de ferro, seguindo os mesmos, pela esquerda, até ao frigorífico; ou, do São Domingos seguia pelo lado direito dos trilhos da Estrada de Ferro, atravessava o córrego perto de onde se encontra hoje, o Extra Supermercados, seguindo até as avenidas 3 ou 1, indo até à rua 20 e dali até o Frigorífico Anglo. 
A partir da década de 1960, com o progresso e o aumento das rodovias e a expansão da indústria automobilista, houve então o declínio do transporte de gado através das comitivas, dando preferência para o transporte rodoviário através de caminhões. Na música “Mágoa de Boiadeiro”, composição de Nono Basílio e Índio Vago, é retratada bem esta situação na visão do boiadeiro: “ . . . cada jamanta que eu vejo carregada/ transportando uma boiada/ me aperta o coração”.
Hoje o Peão de Boiadeiro é quase uma lenda. 
 
 
José Antonio Merenda
Ator, professor, historiador e
presidente da ABC – Academia Barretense de Cultura

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