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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Artigos

Os anjos

Existem os anjos?
Há duas atitudes extremas e opostas que a fé católica procura evitar: de um lado a cética desconfiança em relação à existência dos anjos como se eles fossem mera invenção própria de uma psicologia imatura, e de outro a fantasia esotérica que pretende conhecer uma infinidade de coisas sobre os anjos (seus nomes, a hora em que agem, o modo de invocá-los etc.). Em outras palavras: devem ser evitados tanto o ceticismo racionalista quanto o esoterismo exagerado e irracional.
Faz parte da nossa fé crer na existência dos anjos. A Bíblia dá testemunho sóbrio dessas criaturas celestes que se colocam como mensageiros entre Deus e os homens, sobretudo nos Evangelhos, nos quais os anjos são descritos com um papel bem definido.
A existência dos seres espirituais, que a Sagrada Escritura chama de “anjos”, era negada nos tempos de Cristo pelos saduceus (cf. At 23,8). Negaram-na também os materialistas e racionalistas de todos os tempos, mas “para nos livrar da fé na existência dos anjos, seria necessário corrigir radicalmente a própria Sagrada Escritura e, com ela, toda a história da salvação” (A. Winklhofer, Die Welt der Engel, Ettal 1961, p. 144, nota 2; in Mysterium Salutis, II, 2, p.726). A Escritura e a Tradição nos falam somente o que precisamos saber sobre eles. Os anjos são criaturas espirituais, dotadas de inteligência e vontade e superiores às criaturas visíveis. A missão dos anjos é a de serem mensageiros de Deus e fiéis executores de suas ordens. Eles estão em estreita relação com o mistério de Cristo em dois sentidos.
Primeiramente, como todas as criaturas, os anjos foram criados por meio de e para Cristo. Em segundo lugar, os anjos são mensageiros dos desígnios de salvação de Cristo. Os anjos são criaturas espirituais que dependem de Deus. Elas subsistem na plena identidade de sua condição puramente espiritual. Nesse sentido, eles não têm corpo e, por isso, não estão ligados às suas funções: não conhecem através dos sentidos do corpo (como acontece conosco), não têm instintos, não são masculinos nem femininos; a individualidade deles não procede da corporeidade. Os anjos são pessoas, mas diferente das humanas, não são pessoas compostas de alma e corpo. A perfeição dos anjos depende da proximidade do Criador. Quanto mais próximos de Deus, tanto mais perfeitos. Não se trata, porém, de uma perfeição que coincida com a divina, uma vez que são criaturas e receberam a existência de Deus. O ser deles é recebido e, por isso, não são eternos.
Os anjos não são criaturas de primeiro plano na realidade da revelação e, mesmo assim, pertencem plenamente a ela, tanto que, em alguns momentos, os vemos cumprirem tarefas fundamentais em nome de Deus.
Reconhecemos sobretudo que a Providência e a Sabedoria de Deus guiaram a criação dos seres puramente espirituais para que melhor se manifestasse a semelhança de Deus neles, os quais superam em muito tudo o que foi criado no mundo visível, inclusive o homem, que é incancelável imagem de Deus. Deus, que é Espírito absolutamente perfeito, se manifesta sobretudo nos seres espirituais que, pela sua natureza espiritual, estão muito mais próximos dEle do que as criaturas materiais. Eles constituem quase o “ambiente” mais vizinho do Criador. A Sagrada Escritura oferece um testemunho bastante explícito dessa proximidade dos anjos a Deus. Fala deles com linguagem figurada: são como o “trono” de Deus, as suas “fileiras”, o seu “céu”. O testemunho das Escrituras inspirou a poesia e a arte dos séculos cristãos que nos apresentam os anjos como a “corte de Deus”.
A nossa adoração não está dirigida aos anjos, mas a Deus. Os anjos são servidores de Deus que foram colocados pela sua bondade infinita ao nosso serviço. Assim os anjos nos ajudam a ter um senso mais profundo da santidade e da majestade de Deus e, ao mesmo tempo, um senso de grande confiança, porque tais seres terríveis e excelsos são nossos servidores e amigos.

 

 

 

Dom Julio Endi Akamine
é arcebispo metropolitano
da Arquidiocese de Sorocaba

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