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segunda-feira, 15 de abril de 2024

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Omissão e Prudência

Neste tempo de quaresma, é tempo de reflexão: reflitamos sobre omissão. Esta palavra anda esquecida, mas a vivência do que ela significa está em dia, ou seja, a omissão é atitude tomada pela maioria das pessoas, em especial os que têm responsabilidades de governo. É mais fácil se omitir e posar de prudente, que enfrentar as dificuldades para resolver as situações difíceis, e assim trazer melhoria para as pessoas e instituições.

A omissão é faltar ao cumprimento do dever, deixando de fazer uma ação a que se estava moralmente obrigado. É a decisão de não agir, quando é dever fazê-lo. Podemos até dizer que os pecados ou faltas por ação sejam menos frequentes que por omissão.

Neste tempo de quaresma é bom prestar atenção redobrada nas faltas por omissão, que provocam em todos os ambientes graves consequências no convívio social, na política e até mesmo na Igreja. Por isso se pede durante a missa, no ato penitencial, perdão pelos pecados de “pensamentos, palavras, atos e omissões”.

Nós brasileiros temos muita facilidade de tolerar a omissão, tanto das pessoas como a omissão coletiva, na qual a responsabilidade individual é mais dificilmente determinada. Por exemplo, as conspirações de silêncio em torno da discriminação por raça, cor, etnia ou religião. É a omissão coletiva diante de um estado de injustiça social que pesa sobre a população. Sem dúvida a responsabilidade maior pela omissão recai sobre os que têm meios para repará-la. Porém eles agem sempre apoiados nos grandes cúmplices da omissão: o egoísmo, o comodismo e a covardia.

Os omissos procuram se passar por prudentes. É impressionante o discurso a favor da prudência, a falsa prudência, porém, que os omissos fazem. A falsa prudência segue o politicamente correto, o interesse pessoal, evita sempre os conflitos, capitula diante dos leões e castiga os cordeiros. Esta prudência oprime porque favorece o “status quo”, produz fariseus e não tem profetismo ou visão de futuro.

A prudência verdadeira, trabalha não só em prol da pessoa, mas da coletividade, é movida pela verdade e justiça, defende a dignidade de todos e não tem medo dos leões defendendo os cordeiros. Jesus é a imagem do homem prudente, mas não teve dúvidas em expulsar os vendilhões do Templo. Sua prudência não estava separada do profetismo e do anúncio do Evangelho.

A ética da responsabilidade quer que respondamos não apenas por nossas intenções ou princípios, mas também pelas consequências de nossos atos. Esta é uma ética da prudência verdadeira e é a única válida, porque leva em conta as consequências de nossas ações e não só de nossas convicções.

Não espere por prudência que os seus erros se consertem sozinhos com o tempo. A omissão fará você errar mais.

Por: Dom Pedro Cipollini, bispo de Sto. André-SP

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