sábado, 05 de dezembro de 2020

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O teatro e o artista negro

Caro leitor,
Comemora-se o ‘Dia da Consciência Negra’, em referência à morte do herói negro Zumbi, em 1695, e a luta árdua desse povo em um país escravagista, que nem sequer, depois da Lei Áurea, houve primazia nas políticas públicas de apoio aos libertos, mas, sim, em uma política de branqueamento da população ao receber imigrantes europeus, como força trabalhadora.
Quanto à participação do negro no teatro, já na segunda metade do século XVI, no período natalino, os escravizados promoviam representações de seus autos profanos, com danças dramáticas de origem africana, e, entre a segunda metade do século XVIII e os primeiros anos do século XIX existiam companhias teatrais profissionalizadas com elencos formados por negros e mestiços, escravizados ou libertos que interpretavam personagens brancas com as mãos e os rostos pintados de branco, pois naquela época a figura do ator era desprezível e infame.
Porém, a partir de meados do século XIX, quando o teatro se tornou um espaço de requinte para as elites, os negros e mestiços foram tirados de cena. A partir de então as personagens negras, quando apareciam, passaram a ser interpretadas por atores brancos pintados de preto. Entre 1850 e 1888, ano da abolição, a imagem veiculada sobre o negro no teatro brasileiro se resumia à figura do escravizado, reforçando a ideia de que negro e escravo eram equivalentes, ser negro era ser escravo. Ideólogos, classificavam o negro como menos dotado de humanidade do que o branco, quando não, destituído dela. O resultado era a criação de personagens secundárias e sem nenhuma dramaticidade.
A partir de 1920, artistas negros começaram a aparecer nos palcos nos teatros de revistas, mas tiveram de enfrentar uma sociedade racista, o mesmo aconteceu na TV, em telenovelas, a partir de meados do século XX, com representações dos negros em papéis subalternos. Vale citar alguns atores negros que tentaram vencer o preconceito: Cléa Simões; Francisca Lopes; Grande Otelo; Lizete Negreiros; Izaura Bruno (a mamãe Dolores); Jacira Sampaio; Jacira Silva; Milton Gonçalves; Zezé Motta; Gésio Amadeu, falecido recentemente; entre outros.
Em Barretos, em 1967, a peça “Esqueleto – Zero Hora”, de autoria de José Expedito Marques, baseada no desmonte da favela do Morro do Esqueleto, no RJ, criava personagens negras dentro de suas características próprias, com seus erros e defeitos, corrupção, valentia e vilania. Devido a uma experiência negativa, ocorrida em 1961, quando da montagem da peça “Largo do Rosário, 46 – Fundos”, também de sua autoria, com atores brancos pintados para representar os personagens negros, a encenação ficou estereotipada. Então, com esforço, conseguiu reunir um grupo de negros membros da Sociedade Beneficente Estrela D’Oriente, para representar o próprio negro, com direção do autor, tendo no elenco: Alípio José da Silva, Antonieta Silva, Arlindo Gomes do Nascimento, Décio Francisco Luz, Eunice Silva, João Batista de Souza, José Justino Neves, Luiza Silva, Maria de Lourdes Silva, Marlene Antonia, Oscar Cardoso da Silva, Reinaldo dos Santos e Sílvia Regina. A peça deu origem ao GTNB – Grupo Teatral Negro de Barretos, graças às colaborações de José Pereira Neves (Zé Preto) e Leobino.
Em 1967 e 1970, o TEB – Teatro Experimental de Barretos e o GTNB – Grupo Teatral Negro de Barretos, respectivamente, montaram a peça “Quarto de Empregada”, drama de Roberto Freire, em que as personagens Rosa, uma cozinheira negra, e Suely, uma jovem copeira branca, habitam um mesmo quarto, retratando a dura realidade das empregadas domésticas.
A primeira montagem contou com as atrizes Zilá Silva Oliveira e Maria de Lourdes Silva e, na segunda, Zilá Silva Oliveira e Eunice de Souza Espíndola. Infelizmente, em meados da década de 1970, o GTNB, deixou de existir.
De lá para cá, inúmeros atores negros integraram os diversos grupos de teatro que fazem parte da história teatral barretense, no entanto, destaco dois grandes amigos já falecidos e ícones de nosso glorioso teatro, a atriz Eunice de Souza Espíndola e o ator Euri Silva.
No cenário artístico nacional, atualmente, se destacam o casal de atores negros, Taís Araújo e Lázaro Ramos, que com seus talentos tentam vencer o preconceito.

José Antonio Merenda
Ator, diretor teatral,
historiador e Presidente da
ABC – Academia Barretense
de Cultura

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