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segunda-feira, 04 de março de 2024

Artigos

O Rei e o ladrão

Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus. Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós! Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino! Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso (Lc 23,38-42).
Esse breve relato nos põe diante do nosso Rei que é o Crucificado! E não só. Coloca-nos diante de Jesus que salva o malfeitor arrependido. Trata-se do Evangelho dentro do Evangelho. É o mistério da cruz que resgata a primeira ovelha perdida; é o filho pródigo abraçado pela Misericórdia divina!
Suspenso no madeiro da cruz, Jesus é o documento da nossa condenação. A sua condenação é também a nossa, porque fruto da nossa injustiça mais vergonhosa: a condenação do inocente. Matamos o inocente, odiamos quem nos ama, retribuímos o bem com o mal. Pior ainda. Além de praticar o mal, nos alegramos por tê-lo cometido sem que tenhamos sido pegos nem castigados. Sim. É isso o que acontece toda vez que nos alegramos com o mal que cometemos; é como zombar de Jesus pregado na cruz. “Desce da cruz”! “Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!” Jesus, porém, não quis ser a causa de nossa condenação. Com Ele termina o círculo vicioso da ofensa e da vingança. À ofensa feita a Deus caberia a vingança mais dura: fogo, raio, inferno. Bem merecíamos tudo isso, mas Jesus rompeu essa cadeia maléfica de ofensa e vingança: sua resposta às zombarias é a oração pelos inimigos.
Diante dessa reação de Jesus, um dos condenados é tocado no mais profundo do coração e suplica: Lembra-te de mim quando tiveres entrado no teu Reino! A oração de Jesus produziu o seu primeiro fruto. No momento de desespero, na última oportunidade de uma vida desperdiçada no crime, com suas últimas forças e a sua ultima respiração, um dos malfeitores se dirige a Jesus e lhe pede: “Lembra-te de mim”! A resposta de Jesus é surpreendente: “Hoje”! Não será preciso esperar. Não haverá investigação ou processo. Jesus não salva depois de uma longa investigação. Ele salva hoje. Agora. Imediatamente.
Nós chamamos esse condenado de “bom ladrão” porque no último momento, diante de Jesus, ele se reconhece pecador. Ele é bom não porque teve uma vida santa. Ele mesmo reconheceu que merecia a condenação mais dura. Ele é chamado de “bom”, porque olhou para Jesus e lhe pediu que se lembrasse dele. Olhar para Jesus, pedir a Ele… Quando fazemos isso com sinceridade de coração, a salvação nos é dada imediatamente.
Mais importante ainda é o que se segue: “estarás comigo”. Além de revelar que a salvação é imediata, Jesus acrescenta que, no fim das contas, “estar com ele” é o paraíso. O paraíso não é externo ou extrínseco a Jesus.
Jesus não está mais sozinho. Com ele, partilhando do mesmo sofrimento atroz e morrendo pelo mesmo suplício está o “bom ladrão”. Estão também com Jesus todos os perdidos desta terra que, tendo perdido a esperança em si mesmos, olham para Jesus e pedem: Lembra-te de mim, Jesus!
A Semana Santa nos fala da realeza de Jesus. Do seu trono, a cruz, o nosso Rei pronuncia o julgamento de Deus sobre os inimigos: perdoa e doa o Reino aos malfeitores. Jesus é o Rei que exerce o seu poder, servindo e dando a vida. Ele é o rei cujo único poder é amar até a morte. É o Rei que não sabe e não pode amar a não ser infinitamente. Ele reina neste mundo, mas o seu Reino não é deste mundo. A salvação que Ele traz supera e não se limita à salvação que esperamos. É a salvação de Deus que assume sobre si a nossa condenação e o nosso merecido castigo para estar conosco e assim nos levar ao paraíso que outra coisa não é do que estar com Ele.

 

 

 

Dom Julio Endi Akamine é
arcebispo metropolitano
da Arquidiocese de Sorocaba

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