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sábado, 24 de junho de 2017

Artigos

O que é acrescentado e o que é retirado no uso de substâncias

Às vezes paro para pensar na força, no poder que tanto álcool como as outras substâncias, aqui vou classificar tudo como droga, tem na vida do indivíduo, o que acrescentam de negativo (reforço negativo), o que retiram de positivo (punição negativa) e isso vai acontecendo de uma forma tão sutil que quando o dependente se conscientiza já houve muitas perdas, danos, consequências maléficas.
Através dos relatos vivenciados em atendimentos psicológicos faço várias reflexões acerca do tema e na maioria das vezes com meus próprios pacientes, pois muitos não se conscientizam da dimensão da situação ou se focam em apenas um ou dois aspectos que são os mais “gritantes” e não dão importância para os considerados pelos próprios como secundários.
As relações familiares, sociais são as primeiras a apresentarem fragilidades quando a pessoa começa fazer uso da droga e a família tem conhecimento desse comportamento, sentimentos de desconfiança começam a aparecer, preocupação bem como desejo de ajudar a pessoa que geralmente é frustrado no início do uso.
Perdas financeiras, dificuldade de manter o controle e de assumir as responsabilidades são consequências que vão surgindo conforme o uso vai tornando-se mais frequente. O usuário realiza troca de seus pertences para comprar a substância na falta de dinheiro, muitas vezes vende o que tem dentro de casa ou bens materiais por preço muito abaixo do real valor para conseguir o dinheiro para realizar o desejo do consumo, começam a pedir adiantamento do salário visando o uso e infelizmente não vão se dando conta dessas gradativas desvalorizações materiais e financeiras e nem das perdas consequentes.
Conforme o uso de substâncias vai tornando-se mais crônico as consequências vão tomando a mesma proporção, podendo chegar a perda do emprego devido às constantes faltas ou pelo baixo rendimento, quando vão trabalhar sobre o efeito da substância ou efeitos pós uso, podendo levar problemas para o ambiente de trabalho.
E tem um aspecto, que através da minha experiência profissional, é percebido pelos dependentes como o ápice das perdas acarretadas pela droga que é a auto estima. Começam a deixar de ter seus cuidados de higiene, cuidados íntimos, não cuidam da aparência física (e nem mental), não se importam mais consigo, não se valorizam. Os sinais físicos dessa baixa autoestima mais comuns são: emagrecimento, cabelos, barbas  e unhas sem corte, problemas odontológicos, perda do hábito de tomar banho, roupas mal cuidadas, problemas dermatológicos (descascamento da pele, queimaduras).
Retratei algumas perdas, ou seja, o que a droga retira de positivo na vida do indivíduo, mas há também o que ela acrescenta de negativo, que pode ser doenças decorrentes do uso, aqui se engloba principalmente doenças sexualmente transmissíveis, problemas no fígado e estômago também são frequentes. Outro acréscimo negativo que nos deparamos frequentemente são os relacionados à justiça, como inclusão de processos, comportamentos infratores, vivências em presídios.
Com o tratamento para dependência nosso objetivo também é reestruturar todas essas áreas da vida do indivíduo que foram afetadas ao longo do uso de substâncias, através da reinserção social, do restabelecimento de vínculos familiares, orientação sobre os cuidados pessoais, atendimento psicológico em busca do autoconhecimento e também da preocupação com a saúde.
Precisamos ajudar esse indivíduo resgatar sua dignidade, seu respeito, seu valor e consequentemente sua auto estima.
 
Gabriela Nunes Malosso
Psicóloga 
CRP 06/124683

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