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sábado, 10 de outubro de 2015

Artigos

O que é a tradição da Igreja? (Parte II): Palavra de Deus não é só a Bíblia

É importante que o leitor entenda que a Palavra de Deus não é a Bíblia, mas a Bíblia é a Palavra de Deus, porque ela é infalivelmente inspirada. Talvez assuste ouvir isso, mas essa é uma premissa fundamental para entender a fé da Igreja. A Palavra de Deus é o Verbo eterno do Pai que Se encarnou no ventre da Virgem Maria. Portanto, a Palavra eterna é Pessoa Divina e por mais sagrado e inspirado que seja um livro, ele não pode conter toda a Palavra. Por isso mesmo que no final do seu evangelho São João afirma: “Jesus fez muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever” (Jo 21, 25).
Então, muitas coisas que Jesus ensinou não foram escritas, mas foram ensinadas e vividas; e essas coisas constituem a Tradição da Igreja. Por isso diz o Catecismo da Igreja Católica: “Todavia, a fé cristã não é uma ‘religião do Livro’. O cristianismo é a religião da Palavra de Deus, ‘não de um verbo escrito e mudo, mas do Verbo encarnado e vivo’. Para que as Escrituras não permaneçam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna de Deus vivo, pelo Espírito Santo nos ‘abra o espírito à compreensão das Escrituras’ Lc 24, 45” (CIgC 108).
 
Sagrada Tradição
 
Aliás, a própria Bíblia, ou Sagradas Escrituras, tem o seu berço na Sagrada Tradição. A Tradição inicial, ou seja, a pregação dos apóstolos, é anterior à Sagradas Escrituras e durante muitos anos foi a única regra de fé. Afinal, Jesus mandou: “Ide e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15), e não “Ide e escrevei livros” (é bom lembrar que na época não existia gráfica, nem caneta, tampouco máquina de datilografar… Computador, menos ainda). Com efeito, a pregação dos apóstolos começou no próprio ano da morte de Cristo (ano 33).
Diversamente, os livros da Sagrada Escritura só começaram a ser escritos a partir do ano 50 até o ano 100; e sobretudo, não foram conhecidos pela Igreja universal, senão no decurso dos primeiros séculos, pois ao princípio, só eram conhecidos pelas Igrejas particulares a que se destinavam. Notável é o testemunho da própria Bíblia em favor da tradição: “Embora tivesse muitas coisas a escrever-vos, não o quis fazer por meio de tinta e papel, pois espero ver-vos e falar-vos de viva voz” (2Jo 12); “Conservai-vos firmes na fé e guardai as tradições que aprendestes, quer pela nossa pregação, quer pela nossa carta” (2Ts 2, 14); ‘O que ouviste da minha boca e de muitas testemunhas, confia-o a outros homens fiéis, capazes de instruir os outros” (2Tm 2,2).
Se entendermos que a Escritura é a única fonte da nossa fé, como fazem os protestantes, somos forçados a achar que nos primeiros anos e séculos, não havia na Igreja fonte alguma de fé, o que é inadmissível, porque equivaleria a dizer que então não havia fé; mais admissível é aceitar uma fonte de fé distinta da Escritura, a saber, a Tradição ou ensino dos apóstolos e seus sucessores.
 
Por André Botelho, teólogo e fundador e moderador geral da comunidade católica Pantokrator. Fonte: Canção Nova
 

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