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O que a maconha e o chá de boldo tem em comum?
Talvez na sua infância, quando você sofria de dores no estômago, sua mãe corria para a casa da vizinha, colhia algumas folhas de boldo, preparava um chá e você o bebia. Caso tenha vivido uma situação parecida, certamente se recorda do gosto amargo que tinha o líquido. Mas era, como os antigos diziam, “tiro-e-queda”. Funcionava, e a dor desaparecia.
Com o tempo, a medicina descobriu que, naquela planta, chamada “Peumus boldus”, havia uma substância denominada “boldina”, eficaz contra desconfortos estomacais e do fígado. Rapidamente, as indústrias patentearam e as farmácias comercializaram toneladas do medicamento à base de boldo, que ainda é muito popular nos dias atuais.
Isso porque todas as plantas possuem centenas de princípios ativos em sua composição, entretanto, somente uma ou algumas dessas substâncias conseguirão ter ação benéfica para o organismo do ser humano, ou seja, raros princípios ativos de uma mesma planta terão a capacidade de exercerem um efeito farmacológico.
Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária reconheceu que há, na planta “Cannabis sativa L” (maconha), um princípio ativo chamado “canabidiol”, sigla CBD, definido como útil para o tratamento da epilepsia e como atenuante dos sintomas da AIDS e de diversos cânceres. O canabidiol não vicia e não faz mal, segundo a Diretoria Colegiada da saúde de nosso país.
E essa é, até o momento, a única coisa que presta na planta de maconha para a medicina.Os outros aproximados quatrocentos princípios ativos dessa erva fazem mal, e um deles, o psicotrópico “THC” ou “Tetrahidrocanabinol”, é o grande vilão responsável por levar a pessoa ao vício e causar perda do controle emocional, mau humor intenso, lentidão de raciocínio, esquizofrenia, infecção na garganta, redução da capacidade pulmonar, comprometimento da defesa imunológica, cânceres no sistema respiratório e reprodutor, e por aí vai, além de ser um dos combustíveis do crime no Brasil.
A medicina é sábia. Extraiu o canabidiol da maconha e processou para servir como medicamento, porque ele é eficaz. Contudo, a medicina deixou de ladoo que sobrou da planta, porque não serve pra nada de bom, não tem aproveitamento.
Essa é a grande semelhança entre o boldo e a maconha: só um pequeno fragmento deles tem utilidade para a saúde humana. Aliás, é oportuno destacar que o chá de boldo possui outros princípios ativos que causam riscos à saúde de quem tem problemas inflamatórios, nas vias biliares e no pâncreas, cálculos biliares e hepatite, sendo perigoso para gestantes.
Mas também há algumas notórias diferenças entre essas plantas. O boldo não é fumado para deixar a pessoa insana, esquizofrênica, alucinada, agressiva, nem fora de si. O boldo não é uma das portas de entrada para o crack. O boldo não financia homicídios e roubos no país. Afinal, o boldo não é uma droga.
Por isso a “Cannabis sativa L” continuará proibida. Tê-la para consumo ou para o tráfico ainda é crime. Somente o canabidiol mudou de categoria, sendo agora substância prescrita e controlada por rigorosas normas.
Infelizmente, o Brasil é o maior consumidor de crack e o segundo maior de cocaína do planeta. É preciso educar nossos jovens e resgatar nossos dependentes, ao invés de perder tempo debatendo a liberação do cigarro de maconha, que só é útil para o crime organizado.
Ademais, o argumento de quem estava ansioso para fumar livremente seu cigarro de maconha na praça onde brincam as crianças, enfim, desabou. Aqueles quemarchavam para a liberação da erva, escondidos atrás da bandeira da nobre medicina, vão ter que aceitar que, de fato, só uma substância nela tem validade, e já foi sintetizada pela ciência. Vão ter que aceitar que 75% da população brasileira ainda é contra a liberação do cigarro de maconha. Vão ter que aceitar, afinal, que a verdade pode ser amarga como o chá de boldo, mas ainda é a solução mais decente para o futuro de nossa nação.
Capitão PM Luciano Quemello Borges, Chefe da Seção de Relações Institucionais Nacionais e Internacionais da Diretoria de Polícia Comunitária e de Direitos Humanos da Polícia Militar do Estado de São Paulo