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domingo, 07 de agosto de 2022

Artigos

O piano do Bezerrinha fez história

Caros leitores,

“Vento gelado batendo em meu rosto/ Me diz que agosto
floradas do ipê [. . .] Não vou perder este festão/
Eu vou me embora para a festa do peão”
(Trechos da música ‘Festa do Peão’, de Bezerrinha)

No dia 6 deste mês o Museu “Jornalista Ruy Menezes” recebeu um presente de valia cultural inestimável, o piano que pertenceu ao advogado, compositor, poeta e músico Francisco de Assis Bezerra de Menezes, ou simplesmente “Bezerrinha”, doado por seu filho Marcelo Bezerra de Menezes. Esse Patrimônio Cultural de Barretos está exposto à população, basta visitar o Museu, conhecer o piano e imaginar o Bezerrinha sentado na banqueta a compor suas lindas canções.
Através deles, Bezerrinha e seu piano, belas músicas foram compostas e ganharam o gosto popular, além de levar o nome de Barretos e da Festa do Peão de Boiadeiro pelo Brasil e no exterior.
Bezerrinha nasceu aqui mesmo em Barretos a 12 de abril de 1920, filho de Francisco de Assis Bezerra Filho e Ilnah de Lima Bezerra. Iniciou seus estudos em Campinas, no Instituto Cesário Mota, e, em 1943, diplomou-se pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na Capital paulista. Casou-se, em 1945, no Rio de Janeiro, com Lygia Guerra, sua eterna namorada. Logo após diplomar-se participou como “pracinha” da II Guerra Mundial, sendo aquartelado no Rio de Janeiro e São Paulo e, posteriormente, integrou a FEB – Força Expedicionária Brasileira, nos campos da italianos.
Ao retornar a Barretos, logo após o seu casamento, o seu propósito era advogar, no que se saiu muito bem. Entretanto, a sua sensibilidade artística o levou a dividir seu tempo entre a advocacia e compor, compor, compor . . . junto ao seu companheiro inseparável: o piano. Nesse caminho foram criadas dezenas de canções de enaltecimento a Barretos e à Festa do Peão, com isso homenageava a sua querida cidade, Os Independentes e os peões estradeiros, que tanto progresso trouxeram a esta ‘chãopretana Terra’.
Entre as canções compostas por Bezerrinha, estão: ‘Perfil de São Paulo’, ganhadora do Prêmio do IV Centenário de São Paulo’, gravado por Silvio Caldas, Titulares do Ritmo, orquestras e corais; ‘Barretos 1910’; ‘Palavra de Peão’; ‘Triste Quarta-feira’; ‘Um milhão de madrugadas’; ‘Bom Dia São Paulo’; ‘Peão Bicharedo’; ‘Burro Xucro’; ‘Teu nome é Barretos’; ‘Peão de Boiadeiro’; ‘Não troco o céu pela terra’; ‘Festa do Peão’, mais conhecida por Vento Gelado.
Ao longo dessa caminhada cultural muitos foram os interpretes brasileiros que emprestaram suas vozes para as sublimes canções de nosso compositor: Inezita Barroso, Sílvio Caldas, Agnaldo Rayol, Jair Rodrigues, Albertinho Fortuna, Izaurinha e Linda Batista, Luiz Vieira, entre outros.
No entanto, de uma sensibilidade aguçada, um iluminado, compõe ‘Rancho de Barretos’ aos 18 anos de idade, quando estudante em terras distantes. Talvez seja a sua ‘Canção do Exílio’: “Eu tenho um rancho que fica em Barretos/Não existe outro igual no sertão/Moroso passa pertinho o Rio Grande/Soluçando baixinho uma doce canção/ . . .”, interpretada em Barretos, na década de 1960, por Benedito Soares, conhecido por Ditinho, funcionário do Banco do Brasil. Inclusive tendo gravado um disco. A música fez grande sucesso, sendo cantada até hoje. Também foi sucesso nas vozes da dupla Pedro Bento & Zé da Estrada.
Em 1980, em celebração ao Jubileu de Prata da Festa do Peão de Boiadeiro, “Os Independentes” e a gravadora K-TEL lançaram um LP com 12 músicas de exaltação, sendo que 8 compostas por nosso Bezerrinha e interpretadas por Durval e Davi, Estudante e Escritor, Antonio Borba, Simonal e Simonel, Roxinho e Roxão e Praião e Prainha.
Como reconhecimento, é patrono da Cadeira nº 36 da ABC – Academia Barretense de Cultura, ocupada, inicialmente, por Uriel Franco Rocha e, atualmente pela dra. Geane Maria Rosa.
Bezerrinha faleceu aos 75 anos, no dia 2 de junho de 1995, e sem dúvida, nos deixou um legado de amor à sua cidade natal e sua gente.

 

 

José Antonio Merenda
Escritor, historiador e membro
da ABC – Academia Barretense de Cultura

 

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