Ir para o conteúdo

segunda-feira, 04 de março de 2024

Artigos

O paradoxo da saúde em Barretos: 3 vezes mais médicos e dos piores padrões de atendimento

O SEADE (Fundação Estadual de Análise de Dados) apresentou levantamento de que nossa cidade tem proporção de médicos 3 vezes maior que a média estadual e brasileira. Por outro lado, a constatação inequívoca é de que estamos tendo o pior modelo assistencial dentre todas as regiões e em todos os tempos.
Qual a explicação disso? É simples, pouco percebida e reflexo de uma série de barbaridades profissionais impostas por uma gestão de saúde incompetente, fria e irresponsável, ao mesmo tempo.
O gestor da saúde, que é dono de uma faculdade de medicina particular, aplica sua “ideia genial” de colocar nos pontos de trabalho médico de Barretos e região, todo o possível número de médicos recém formados de sua faculdade. Considera isso uma garantia “premiada” de mercado de trabalho para os formandos em sua faculdade.
Qual a gravidade ética, técnica e administrativa somadas nesse sistema?
Primeiro: recém formado, colocado ao atendimento de pacientes, significa colocar profissional que o próprio CREMESP constatou alguns anos atrás, por provas de suficiência dos formandos, que menos de 50 por cento têm conhecimento mínimo de medicina geral. Na prática tradicional no mundo inteiro, um médico está apto a colocar “as mãos” num paciente, após 4 a 8 anos depois dos 6 anos de formado. No Brasil, pela reduzida qualidade de graduação na maioria das faculdades, isso seria o mínimo necessário e exigível.
A segunda questão é que não são feitas provas de avaliação, concurso de habilitação nem classificatório dos médicos os quais são IMEDIATAMENTE contratados para os pontos de ATENDIMENTO PÚBLICO. São, portanto, profissionais de formação geral rasante, sem especialidade qualquer e sem experiência prática.
A grande “vantagem” para o gestor: sempre terá salariados rasantes, em início de carreira, sem garantia de estabilidade, tudo satisfazendo à gula de arrecadar em cima da saúde como um todo. Isso explica algo que precisa ser sabido: a hora/trabalho de médico em Barretos é de 100,00 reais, enquanto na região de Campinas e demais centros é da ordem de 180,00 reais.
Isso explica porque temos 3 vezes mais médicos na cidade com o paradoxo de qualidade péssima, sendo que quantidade não significa, nesse caso, “riqueza” de recursos. Assusta a frieza e a postura calculista de gestores, visando economizar despesas com atendimento à saúde, não se importando com os riscos carreados aos pacientes. Impressiona os jovens não perceberem isso, sendo-lhes oferecido uma “oportunidade” de tão logo auferir de volta o que foi por ele investido.
Efeito imediato e grave consequência: um profissional médico especialista, bem formado e pós graduado que queira vir para Barretos, certamente deixará de vir aqui trabalhar, diante do monopólio existente, com “concorrentes” privilegiados e minando a fama da medicina da cidade e por conta de existirem mercados melhores, mais justos, com carreira segura e de convívio em meio profissional mais respeitado.
Outra consequência objetiva disso, foi a EVASÃO de centenas de profissionais gabaritados, mormente, em oncologia sendo “mandados embora” ou não concordando com a visível degradação programada por esse sistema imposto em Barretos.
Chocante situação é a lassidão, permissividade, conivência de órgãos fiscalizadores do exercício da Medicina, como os de proteção ao cidadão, assistindo a Prefeitura admitir essa grave realidade.

 

 

 

 

Dr Fauze Jose Daher
Médico e Cirurgião
Ex Diretor Clínico da Santa Casa de Barretos
Ex Presidente da Assoc. Paul. de Medicina,
Reg. de Barretos Formado pela Escola Paulista
de Medicina – UNIFESP, Mestre em Cirurgia pela
(Univ. Federal de São Paulo) e Advogado

Compartilhe: