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terça-feira, 16 de abril de 2024

Artigos

O papel fundamental do MMDC na Revolução de 32

Caros leitores,
O dia 9 de julho de 1932 marca o início da Revolução Constitucionalista, uma guerra civil, travada por cerca de três meses, entre os paulistas e as forças federais de Getúlio Vargas. Nós, paulistas, proclamávamos: “é preciso defender a Constituição!” Assim, São Paulo se insurgia contra Vargas, lutando sozinho contra o resto do Brasil.
Porém, tudo começara há pouco mais de um mês, no dia 23 de maio, com manifestações por toda parte contra as manobras de Vargas e o retardamento da reconstitucionalização do País. Getúlio assumira a presidência após a Revolução de 1930, pondo fim à ‘República Velha’, na condição de um Governo Provisório. Com os ânimos cada vez mais exaltados, o povo, em sua maioria estudantes, protestava, com caminhadas cívicas, comícios e discursos inflamados, empunhando bandeiras de São Paulo e do Brasil.
Nesse dia, os manifestantes rumaram em direção ao Palácio dos Campos Elísios, onde uma comissão iria falar com o interventor Pedro de Toledo. À noite, a agitação era intensa e se concentrava na Praça da República, com a ideia de tomar de assalto a sede da Legião Revolucionária, entidade tenentista, transformada em Partido Popular Progressista (PPP), dirigido pelo general Miguel Costa. A multidão, então, tentou invadir o prédio, mas, foram recebidos a bala. Pânico e correria à procura de abrigo. No entanto, já era tarde. Alguns jovens estavam caídos ao chão, todos mortos, cerca de doze ou treze, entre eles: Mário Martins de Almeida, de uma família de cafeicultores, com 31 anos, estudante do Mackenzie; Euclydes Bueno Miragaia, com 21 anos, auxiliar de cartório; Dráuzio Marcondes de Souza, de apenas 14 anos, filho de um farmacêutico e Antonio Américo de Camargo Andrade, com 31 anos, casado, deixava esposa e dois filhos.
As mortes não poderiam ser em vão. Elas causaram indignação e consternação na sociedade, que decide fundar um grupo que pudesse levar avante os ideais defendidos por todos. O fato é que, daí, então, das iniciais dos nomes de quatro mortos no massacre, surgiu o MMDC, inicialmente sob sigilo absoluto para não causar alarde. Em pouco tempo tornava-se um símbolo do movimento. Abrigado na Faculdade de Direito do largo de São Francisco, passa a exercer um papel fundamental de apoio aos revolucionários, numa verdadeira operação de guerra, inclusive na formação do exército constitucionalista, inclusos dezenas de barretenses, juntando-se à Força Pública de São Paulo. Entre outras ações, passa a atuar na organização e na criação de comissões; na campanha “Doe Ouro para o bem de São Paulo’, muitas famílias se despojaram de anéis, alianças, colares, para compor um fundo para a compra de armamentos; e, ainda, no treinamento dos voluntários, conseguindo mobilizar 35 mil homens, contra 100 mil soldados do governo Vargas.
Apesar de todos os esforços, era notável a inferioridade de nosso material bélico e o raro apoio aéreo. Entretanto, com criatividade e astúcia foram produzidas ‘engenhocas’ que visavam enganar e levar pânico às fileiras governistas, entre elas, a ‘Matraca’, inventada pelo professor e engenheiro Otávio T. Mendes, do Batalhão Piracicabano, que consistia, como descreve Glauco Carneiro: “(…) Nada mais era do que um aparelho dispondo de uma roda dentada, na qual tocava numa lâmina de aço, girando aquela em alta velocidade, provocando, assim um ruído aterrador de fogo de metralhadora”.
Infelizmente, com o coração paulista dilacerado, foi assinada a rendição a 2 de outubro.
Exatos 38 anos se passaram, no dia 23 de maio de 1970, Barretos ganhava um obelisco na Praça 9 de julho, doado pelos veteranos de 1932 – MMDC, cuja placa constante do monumento, expressa: “Homenagem da Sociedade Veteranos de 32 MMDC aos barretenses tombados na Revolução Constitucionalista: Siznando Moreira, Hugo Prado e Fernando Andrade Camargo.
Atualmente, o Obelisco se encontra abandonado em meio ao canteiro de obras do novo Postão e o Terminal de Integração de Ônibus Urbanos.´Até a década de 1990, ele reinava absoluto no centro da Praça 9 de julho.
Hoje seu futuro é incerto. Preservar a memória é preciso . . .

 

 

José Antonio Merenda
Historiador e membro da ABC
Academia Barretense de Cultura
Cadeira nº 29

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