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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Artigos

O mundo absurdo

Vivemos em busca de verdades. Dormimos em busca de verdades.
As pessoas transformam vontades em verdades. Vale tudo pela verdade. Mas as verdades têm de ser universais, tornarem-se um sonho coletivo para que se efetivem, porque, quando a verdade for consolidada nos desejos das mais diversas pessoas, ela se tornará legítima. 
Toda verdade nasce de um desejo, por mais absurdo que seja. Tudo aquilo que é de valor só o é porque alguém atribuiu tal valor. Vale muito aquilo que é de desejo coletivo. O desejo agrega valor a algo. Possuir algo que todos desejam é satisfazer-se socialmente. Ninguém quer ser feliz sozinho. Os líderes políticos vendem verdades, valores: juntam soldados dispostos a lutarem pelas suas verdades. As verdades são lucrativas. A política pública gera lucro – aos políticos.
Todos nós, no fundo, vendemos felicidades. A felicidade tem de se tornar verdadeira, ainda que absurdamente. A maioria das ideias nasce de pensamentos absurdos. Se trouxer benefícios no futuro, então qualquer mau princípio é válido – é um absurdo válido.
O absurdo humano é retratado em grande parte da obra de Camus; é retratado, explicitamente, em O mito de sísifo. Sobre um dos significados de absurdo, Camus diz: “cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o ‘por quê’ e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro.”
A “lassidão tingida de assombro” faz parte da vida de todos nós. A felicidade pode ser um absurdo aos olhos de muitos e uma glória aos olhos de outros. 
Para o húngaro Imre Kertész, sobrevivente de Aushwitz, autor de uma fantástica trilogia, entre as obras, Sem destino, livro em que é representada a barbárie, cruel capacidade da ação humana em busca da defesa de seus ideais, de suas verdades, a sua felicidade estava na satisfação da fome, em comer, porque seu corpo já estava transformado num vazio, num buraco sem fim: “Só tinha olhos para ele, toda a minha razão estava a serviço dele, dirigia todos os meus atos, e se não comi árvore, ferro ou pedra foi somente porque não eram mastigáveis ou digeríveis. Mas, por exemplo, fiz tentativas com areia, e quando via grama, nunca hesitava – infelizmente não havia muita grama na fábrica nem no campo”. 
Hitler defendia os seus ideias, e contou com a solidariedade de milhares de pessoas, as quais também buscavam os mesmos ideais, transformando-os em verdades. A busca passou a ser coletiva. Foi o princípio da barbárie que durou longos anos do século XX.
A economia mundial é gerada a partir da ideia de felicidade. Para que produtos – ideias e matérias – sejam consumidos, é preciso, primeiro, vender o conceito de felicidade, mais do que vender a ideia de necessidade. Os empresários, donos de empresas fabricantes de celulares e tablets, sabem disso.
Somos todos felizes! 
Absurdo assim…
 
Franco de Paula Gonçalves é graduando em Letras pela UNESP – São José do Rio Preto

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