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segunda-feira, 17 de junho de 2024

Artigos

O médico e o doente

Todos ficaram atônitos com a notícia de sua morte violenta. De alguma forma, esse fim era esperado e, ao mesmo tempo, inesperado. A forma como ele viveu não poderia ser qualificada de tranquila: morreu conforme viveu. Alguns disseram que sofrera um linchamento, tendo sido apedrejado, decapitado e queimado, mas essa informação não parecia confiável. A única certeza era de que tinha sido morto cruelmente. Seu fim, porém, não foi provocado pelos motivos pressupostos. A razão de sua morte violenta só ficou clara depois de algum tempo, quando os seus conterrâneos tomaram conhecimento do livro que publicara.
Ainda jovem, tinha aprendido as artimanhas para explorar a concessão de coletar taxas e impostos na região onde morava. Tinha começado aos poucos. Exigiu pequenas quantias “por fora” além da tabela estipulada pela autoridade do lugar. Percebeu que podia contar com a cumplicidade dos agentes da lei, dividindo com eles os ganhos injustos. Percebeu que as “rachadinhas” eram um tipo de pedágio para garantir as vistas grossas de quem tinha a obrigação de fiscalizar as contas e os recolhimentos dos tributos.
Além da conivência dos fiscais, tinha aprendido também que a cumplicidade dos agentes de segurança era necessária, tanto para sua proteção pessoal quanto para intimidar quem não quisesse se submeter ao extra que impunha sobre as taxas e impostos que recolhia. Chegou até mesmo a ir nas casas das pessoas para cobrar pagamentos com ameaças de prisão e punições. Nessas investidas nunca ia sozinho. Contava com a companhia de policiais tão corruptos quanto ele.
Era odiado pelos conterrâneos, mas os ganhos eram consideráveis. Não tinha escrúpulos em justificar o seu agir execrável, dizendo para sua própria consciência que todos os outros operavam no mesmo esquema. Sentia-se até melhor do que outros por não abusar demais das sobretaxas exigidas.
Estava habituado e não pensava em mudar de vida. Era um homem que conhecia algumas línguas, sobretudo a do dinheiro. Tinha facilidade com o mundo das finanças, das moedas e dos impostos. Sabia como fazer seus negócios. Por isso, foi com surpresa que as pessoas perceberam a mudança radical ocorrida na vida daquele que tinha sido odiado pelo modo abominável com que exercera seu ofício.
De uma hora para outra renunciou à concessão de coletor de imposto. Perdeu seu patrimônio porque decidiu devolver tudo o que tinha tomado indevidamente. O que sobrou foi pouco, mas também esse pouco partilhou com os mais necessitados do que ele. Caiu na pobreza, mas não parecia se importar com essa nova condição.
Seu modo de agir chegou a influenciar alguns antigos cúmplices. E mesmo os que não abandonaram suas práticas desonestas experimentaram da parte dele um afeto diferente: nunca eram repreendidos pelas suas palavras, mas pelo seu novo modo de agir.
Sair do “esquema” não foi fácil. Foi ameaçado, e era visto como um perigo para muitos dos seus antigos cúmplices. Recebeu mensagens veladas e explícitas para não deixar a organização. A “queima de arquivo” só não ocorreu porque deixou a cidade e foi perambular pelo mundo.
Chegou finalmente até os conterrâneos o livro que publicou no estrangeiro. Não era um livro autobiográfico, nem trazia detalhes da sua vida, tampouco narrava o que tinha feito depois de abandonar a sua cidade. Ao mesmo tempo, explicava tudo isso de uma maneira surpreendente.
A única nota autobiográfica do livro era muito sóbria, breve e, ao mesmo tempo, iluminadora. Eis o que escreveu na única menção que fez de sua vida: “Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: ‘Segue-me!’ Ele se levantou e seguiu a Jesus” (Mt 9,9).
Levi ou, como ficou mais conhecido, Mateus (Mc 2,14; 3,18; Lc 6,15; Mt 10,3; At 1,13) tinha matéria de sobra para escrever um livro sobre sua vida e missão, mas, nesse caso, não seria mais o “Evangelho de Jesus segundo Mateus”.

 

 

Dom Julio Endi Akamine
é arcebispo metropolitano da
Arquidiocese de Sorocaba
Alexandre Garcia é jornalista

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