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O machismo e a violência contra a mulher: dois casos fatais ocorridos no Estado de São Paulo
Vive-se em uma sociedade na qual, desde os primórdios da história,vigora de forma persistente um conceito desigual entre homem e mulher, que, se colocados em uma pirâmide hierárquica, faz com que o homem apareça como o detentor do poder, enquanto a mulher fica em posição submissa, abaixo deste.
Considerada popularmente como sendo o “sexo frágil”, a mulher, principal alvo dos machistas, é vítima – diariamente – de diversas formas de violência: verbal, moral, física, sexual, psicológica, doméstica, patrimonial e etc.
Por machismo entende – seum comportamento de superioridade por parte do homem, que inferioriza o sexo feminino e faz com que os adeptos a este tipo de conduta apliquem seu poder de ofensa e principalmente sua força física contra a mulher de forma natural, como se comum fosse.
A própria mídia divulga com frequência casos de mulheres que morrem por não resistirem às violências sofridas, bem como casos em decorrência dos quais outras mulheres ficaram com suas vidas destruídas; Mulheres estas que perderam a coragem de sair nas ruas ou de dar início a uma nova vida por medo de que a violência se repita, ficando a mercê do medo e da depressão.
Recentemente, ocorreram dois casos de violência contra a mulher, notoriamente movidos pelo machismo, que resultaram na maior fatalidade possível: a morte.
O primeiro deles, ocorrido na cidade de Barretos-SP no dia 31 de dezembro do ano de 2016 resultou na morte de uma jovem mãe. Em resumo, o marido tomou conhecimento de boatos sobre a esposa que não lhe agradaram e ao chegar em casa e não encontrar a mesma e nem seu filho, formulou suas conclusões e entrou em estado de loucura, o que fez com que o mesmo tivesse coragem de violentar a mulher até sua morte, e, inclusive, atentar contra sua própria vida, após o ato cometido.
O segundo caso, ocorrido em Campinas-SP, na noite do Réveillon de 2017, resultou na morte de 10 (dez) pessoas da mesma família. Aqui, o homem (criminoso) fez questão de enviar uma carta aos amigos informando o que iria fazer, declarando o ódio pela ex-esposa e todas as mulheres de sua família. Dizendo ainda, repetidas vezes, que estas se beneficiam da “Lei Vadia da Penha”; analogia vulgar que fez à Lei Maria da Penha, ignorando, pelo termo, o tamanho de sua importância e o avanço que significou para a sociedade feminina, tendo em vista que a mesma cria mecanismos de coibição, prevenção e erradicação da violência contra a mulher.
. Não se pode admitir que em pleno século XXI, comportamentos como estes sejam considerados normais ou passionais, porque não são. O amor não pode ser tão desmedido que resulte na morte. O ciúme não pode ser tão agressivo que resulte na morte. A sociedade não pode fechar os olhos para a violência. É preciso que haja uma mudança cultural acompanhada da valorização e respeito à vida do próximo. Especialmente, quando este próximo for a mulher, pois é ela quem dá origem a vida.
O direito se adequa, por seu dever de proteção. Mas, para que haja eficácia real, é necessário que a sociedade machista desconstrua este estereótipo e substitua a consciência agressiva pela consciência genuína, que é aquela que nos capacita a amar, respeitar, agir com nobreza, generosidade e sensibilidade, colocando-nos, antes de agir, no lugar do outro.
É preciso insistir em dizer não à violência. É preciso fazer com que a igualdade de gêneros se torne imperiosa na sociedade. Que se torne menos extremista, menos calculista, menos vingativa. É preciso que se construa uma realidade fraterna e pacífica entre homens e mulheres. É preciso matar o machismo, e não permitir que ele mate.
Nós precisamos falar de violência contra a mulher, precisamos discutir gênero, precisamos repensar a forma de educar nossas crianças, se quisermos alcançar uma sociedade mais tolerante e fraterna. Não esperemos por mais “Tainá e Isamara”.
Leticia Guirão Hayek, acadêmica do Curso de Direito da Faculdade Barretos.
Cassiane de Melo Fernandes, advogada, mediadora/conciliadora, professora do Curso de Direito da Faculdade Barretos.