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sexta-feira, 19 de julho de 2024

Artigos

O legado de Bento XVI

O papa Bento XVI encerrou a sua jornada neste mundo, no último dia de 2022, com 95 anos, depois de quase dez anos de sua renúncia, em 2013. Foi, sem dúvida, o maior teólogo da Igreja no século 20 e começo do século 21, com uma produção intelectual de grande envergadura, com participação em cerca de 600 obras. Seus escritos de grande profundidade, em questões não apenas teológicas, mas filosóficas e históricas, fizeram dele um escritor profícuo e atento aos principais problemas do nosso tempo. Ainda em 2005, pouco antes de ser eleito como papa, denunciou a “ditadura do relativismo”, como também o ateísmo militante, e tantas outras ideologias que se impregnaram na sociedade, afetando assim o cristianismo, que precisa voltar a ser conhecido, para ser melhor vivido, como acentuou Joseph Ratzinger, em muitos de seus posicionamentos, especialmente as homilias como papa Bento XVI. O próprio nome escolhido fazia referência São Bento, padroeiro da Europa, pois Ratzinger entendeu que um dos graves problemas da Europa é o processo crescente de descristianização, principalmente depois das duas grandes guerras mundiais.
O nome de São Bento, buscou resgatar o grande patrimônio do cristianismo, abalado pelas ideologias e também pelo ateísmo e outras influências corrosivas, como o neopaganismo, etc. Em um de seus artigos “Os neopagãos e a Igreja” (“Ratzinger – O Novo Povo de Deus”, Molokai Editora, p. 374), Bento XVI afirmou que “a Igreja deve transformar-se novamente numa comunidade de convicção (…) justamente para que possa readquirir novamente toda a sua seriedade e estima”. mas que a postura do cristão diante dos neopagãos não deveria ser de confrontação, mas de diálogo e testemunho de vida, porque Cristo veio para todos, e o cristão deve levar a todos a mensagem do Evangelho, este é o desafio da chamada nova evangelização.
Por isso os fiéis católicos admiravam Bento XVI pelo que ele dizia, as suas homilias, os seus ensinamentos, os livros que escreveu e publicou, a sua mensagem como grande teólogo, que também enfrentou os problemas do nosso tempo, com realismo e sabedoria.
Mas é preciso sair de si e ir ao encontro do outro, no exercício da caridade, para que nesse encontro possa haver a verdadeira conversão e descoberta de Deus. E ressaltou: “Assim é a própria vida cristã: tecida de esperanças e perigos. O próprio cristão, como homem de esperança e como homem capaz de vencer os obstáculos, precisa ir ao encontro dos neopagãos, pois realmente o caminho da salvação, aceito ou não, é um só: Jesus Cristo, o Senhor”.

 

 

Valmor Bolan é Doutor em Sociologia.
Professor da Unisa. Ex-reitor e Dirigente
(hoje membro honorário) do Conselho
de Reitores das Universidades Brasileiras.

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