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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Artigos

O jogo do jogo

Em que pese a nossa colocação no ranking da FIFA, que nunca esteve tão baixa, ainda conseguimos manter a fama de sermos o país do futebol. Isso significa que todos, no Brasil, entendem do assunto, certo? Errado! É evidente que temos uma grande parcela da população que sabe o que está falando quando o assunto é esse esporte, no entanto, quando ouvimos a análise de alguns comentaristas esportivos, temos a plena convicção de que assistimos a outro espetáculo. O mesmo acorre no bate-papo entre torcedores. Ali a coisa piora, porque a paixão por este ou aquele time fala mais alto do que a razão.
Não estamos, aqui, afirmando que a nossa opinião, o nosso modo de ver o jogo é o correto, é o verdadeiro. O que dizemos é que, na vida, quase tudo é relativo. E isso nos leva à velha citação de que, existem três verdades: a nossa, a dos outros, e a real, a verdadeira. A nossa verdade e a verdade dos outros sempre escondem o filtro dos interesses. Esses filtros nos permitem deixar transparecer apenas o que nos interessa expor. Ninguém, em sã consciência vai expor as suas deficiências, os seus erros, os seus defeitos. Principalmente em uma sociedade que prima pelas aparências.
Abrimos o texto dessa maneira para fazer as nossas costumeiras comparações. E voltamos as nossas atenções para o que ocorreu nos últimos dias em Brasília, quando os olhos da população mais uma vez estavam concentrados nas decisões do STF. E chegamos à conclusão de que, a exemplo do que acontece no futebol, temos muita gente que entende de Justiça, outro tanto que acredita que entende, e muitos que não têm a mínima noção do que é isso. E existe um outro segmento que arrasta o agravante de que, embora entenda do assunto e seja especializado nele, não perde a oportunidade de expressar os seus filtros.
Chega a ser triste a visível manifestação de vaidades por parte de algumas de nossas autoridades. Esse aspecto, felizmente não foi destacado nas últimas manifestações que ocuparam as ruas de todo o país. Não foram citadas porque a população não se apercebeu disso, principalmente porque ocorreu um espaço de tempo entre a primeira fase do julgamento e os fatos recentes, quando as manifestações deixaram as manchetes e praticamente se extinguiram.
Não estamos, aqui, julgando nem analisando as tomadas de decisão do Tribunal, até porque as decisões da Justiça têm que ser cumpridas. O que se coloca em debate é a maneira como a sociedade vê o que está acontecendo, como nós vemos as coisas, como fazemos a nossa análise, talvez até mesmo usando os nossos filtros; é o desgaste provocado pela demora, é a postura de alguns advogados especializados no hábito de procrastinar, é a visível afronta praticada contra a lei, é o sintoma de impunidade.
Assim, fica muito difícil para os cidadãos comuns entenderem os meandros da Justiça, e o porquê de tanta morosidade. E isso faz crescer o número de críticos onde, ao contrário do esporte, a paixão é deixada de lado, e a descrença ganha corpo, e predomina a convicção do que, ao contrário do que apregoa a Carta Magna, alguns são mais iguais do que outros. E isso não há filtro que possa esconder.
 
Vitor Sapienza  economista e agente fiscal de rendas aposentado

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