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terça-feira, 02 de março de 2021

Artigos

O câncer de pele e a pandemia

Com a chegada do verão, um velho conhecido dos brasileiros volta ao centro do debate de saúde: o câncer de pele. Diretamente ligado à exposição solar, este é o tipo de alteração cancerígena mais incidente no país — uma em cada quatro das novas ocorrências de tumor diagnosticadas, de acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca).
Neste período, são intensificadas as campanhas de conscientização e prevenção, como o Dezembro Laranja. Mas, no verão da pandemia, no contexto do distanciamento social, alguém pode se perguntar: com a possibilidade de as pessoas se exporem menos ao sol, ainda será preciso preocupar-se com o câncer de pele?
Atraso
Para a coordenadora do Departamento de Oncologia Cutânea da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Jade Cury Martins, a realidade das medidas de combate à covid-19 não é um sinal verde para relaxar na prevenção ao câncer — como o uso do filtro solar. Segundo a dermatologista, o impacto do coronavírus no quadro geral pode ser negativo: a queda drástica no número de diagnósticos precoces, essenciais para aumentar as chances de cura.
— Os atendimentos ambulatoriais foram suspensos por uma época, no auge da pandemia, e mesmo naqueles que não foram suspensos, muitos pacientes sentiram medo de ir ao médico. Com isso, estamos atrasando os diagnósticos e descobrindo lesões já mais avançadas — alerta a especialista.
Dados levantados pela SBD junto a secretarias municipais e estaduais de Saúde demonstram que, de janeiro a setembro, a procura por atendimentos de dermatologia preventiva caiu cerca de 48%, se comparado ao ano anterior.
Negligência
Somado ao subdiagnóstico, há uma espécie de “desvalorização” da doença, se comparada a outros tipos de câncer. De acordo com a médica e pesquisadora Caroline Albuquerque, oncologista clínica do Hospital São Lucas da PUCRS e da Oncoclínica, a negligência em relação ao tumor de pele é mais um fator que atrapalha o processo de diagnóstico precoce e de cura da doença — que, se não diagnosticada e tratada, pode ser fatal:
— As pessoas têm a falsa ideia de que é só um problema de pele, só uma pinta, e acabam não se importando. A gente vê a população aderindo muito mais ao rastreamento do câncer de mama, por exemplo, enquanto a pele é negligenciada.
Sobrecarga
Diante deste cenário, a expectativa das especialistas é de que, além de uma verificação maior de casos já avançados, o próximo ano seja marcado por uma sobrecarga nos sistemas de saúde — sobretudo o sistema público. Deste modo, a orientação é de que, independentemente da pandemia, a população permaneça tomando os cuidados necessários para a prevenção do câncer de pele, realize avaliação dermatológica anualmente e procure atendimento médico sempre que notar alterações cutâneas que possam indicar a presença da doença.
Conheça os tipos mais comuns
Carcinomas — Também chamados de não melanomas, representam cerca de 90% dos casos. Em geral, tendem a ser menos letais do que os melanomas, com baixo índice de metástase (espalhamento para outros órgãos) e grande chance de cura se descobertos precocemente. Há dois tipos frequentes: o carcinoma basocelular, que geralmente se desenvolve em áreas como cabeça e pescoço, tem crescimento lento e raramente se espalha para outras partes do corpo e o espinocelular, que costuma aparecer em rosto, orelhas, lábios, pescoço e dorso da mão, podendo também surgir em cicatrizes ou feridas crônicas da pele em qualquer parte do corpo. Ambos, apesar de menos graves, podem levar à morte se não diagnosticados e tratados a tempo.
Melanomas — Mais raro, é o câncer de pele que vem de pintas, manchas e sinais, podendo ser detectado em qualquer parte do corpo. É o tipo mais grave, devido ao grande potencial de provocar metástase.

Camila Bengo – Instituto Nacional do Câncer (Inca), Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e dermatologistas Jade Cury Martins e Caroline Albuquerque

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