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segunda-feira, 17 de junho de 2024

Artigos

O Banco Central não pode tudo

Há alguns anos, o economista Roberto Macedo forçou um tanto a comparação quando escreveu que a capacidade da política de juros de combater a inflação no Brasil é algo tão precário como pretender frear um carro contando apenas com o atrito com o ar produzido por uma antena externa de rádio.
Onde é adotado o regime de metas de inflação, os bancos centrais se valem apenas da administração da política monetária. Tratam de manter o volume de dinheiro na economia em nível tal que obtenha os juros (seu preço) desejados.
Por meio de algumas correias de transmissão, como volume e preço do crédito, condução das expectativas do mercado e câmbio, procuram controlar a demanda de modo a conduzir a inflação à meta determinada pelo governo que, para esse fim, no Brasil, é o Conselho Monetário Nacional (CMN).
No entanto, por aqui a política monetária pode menos do que em outros países, não só porque a política fiscal gastadeira joga contra — pois emite moeda e aciona uma demanda excessiva –, mas porque controla apenas uma parcela das causas da inflação.
Não controla, por exemplo, os preços administrados, que compõem cerca de 25% da cesta de consumo medida pelo IPCA, porque a variação de preços desses serviços e produtos não é determinada pela oferta e demanda no mercado. Seus reajustes são definidos por contratos ou pela regulação do setor público. Entre eles estão a conta de luz e de gás, preços dos combustíveis (até certo ponto), do transporte público, planos de saúde e correções automáticas de aluguéis.
Também escapam do controle dos juros os preços das commodities cotadas em dólares e convertidas em reais pelo câmbio do dia. Isso vale para grãos e proteína animal (café, trigo, soja, milho, frango), para os combustíveis e também para as commodities minerais.
Quando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) oferece créditos a juros favorecidos, a transmissão da política de juros via crédito fica prejudicada e parte da demanda deixa de ser controlada.
E tem a inflação de custos. É a provocada por catástrofes naturais, guerras ou restrições geopolíticas. A pandemia de Covid-19 desorganizou a produção e a distribuição no mundo inteiro. Peças, componentes e mercadorias acabadas ficaram retidos nos portos e os custos dispararam.
No Brasil, o Banco Central não controla o câmbio. Limita-se a intervir para evitar grandes flutuações. Cotações mais altas da moeda estrangeira, seja por eventos externos, seja por turbulências internas, produzem inflação na medida em que encarecem os importados. Um dólar mais barato tende a reduzir o impacto da inflação.
O governo conta com instrumentos mais poderosos de controle de inflação do que a tal anteninha do Banco Central. Quando o governo não ajuda, nem mesmo juros altos conseguem segurar os preços.

 

 

Celso Ming é comentarista
de economia

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